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O alto preço pago por uma testemunha de crimes de guerra

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em agosto 28, 2014

Haia, Holanda – Ela escolheu o anonimato de uma estação de trem para conversar sobre o peso insustentável de levar uma vida dupla.

O alto preço pago por uma testemunha de crimes de guerra

Haia, Holanda – Ela escolheu o anonimato de uma estação de trem para conversar sobre o peso insustentável de levar uma vida dupla.

Ela jamais planejara viver dessa forma. Quando a jovem de Belgrado resolveu testemunhar no julgamento de um dos casos de crime de guerra mais sensacionais das últimas décadas, envolvendo o presidente sérvio Slobodan Milosevic, prometeram que sua identidade não seria revelada.

Ela recebeu um codinome, Testemunha B-129, e sua voz e seu rosto eram eletronicamente alterados no telão do tribunal das Nações Unidas durante o julgamento do líder da antiga Iugoslávia, em Haia, quando testemunhou em 2003.

Até que um técnico divulgou trechos de sua voz verdadeira por engano, e o som foi transmitido ao vivo para a Sérvia. Logo que ela voltou para casa, alguém tentou matá-la.

A Testemunha B-129 agora está entre as que vivem sob os cuidados da polícia em programas de proteção a testemunhas, longe de casa, com novos nomes e histórias para esconder suas identidades reais.

‘Para a Sérvia eu sou uma traidora’, afirmou a mulher discreta de modos delicados, atualmente com 42 anos. ‘Ajudar o tribunal arruinou a minha vida’.

A Testemunha B-129 buscou um repórter que, de acordo com determinações legais, não pode revelar sua identidade, nem sua localização, para conversar sobre o preço alto pago por ela pelo testemunho contra Milosevic e a polícia secreta da Sérvia.

Segundo ela, os últimos 11 anos foram como viver ‘em um labirinto’.

‘Nos disseram que poderíamos levar uma vida normal’, afirmou. Ao invés disso, ela e o marido se sentem presos nas garras de uma burocracia passiva, dos integrantes do tribunal da ONU e da polícia de um país desconhecido.

‘Você não é imigrante’, afirmou a Testemunha B-129. ‘Quando recebe uma nova identidade, perde tudo: os amigos, as propriedades, os contatos com a família, a carteira de motorista, sua própria história’. Com frequência, acrescentou, ‘sinto como se estivesse prestes a perder a cabeça’.

Autoridades do tribunal de Haia e da polícia do novo país de residência da testemunha se negaram a discutir o caso. Porém, a história foi corroborada por documentos judiciais e cartas mostradas por ela e por advogados que trabalharam no caso, fornecendo uma rara perspectiva sobre uma parte moderna, mas profundamente escondida, da justiça internacional.

Todos os tribunais de crimes de guerra atuais dependem das testemunhas, já que chacinas, torturas e estupros raramente vêm acompanhados de documentos que determinam os responsáveis.

Muitas utilizam pseudônimos ao testemunhar, mas apenas algumas recebem proteção em função do perigo a que são expostas, recebendo uma nova identidade e mudando de país.

Os números de telefone e seu paradeiro são segredos cuidadosamente guardados, e não se sabe praticamente nada a respeito de sua situação. As testemunhas são informadas de que serão cortadas do programa de ajuda se revelarem suas identidades originais.

Durante dois anos, a Testemunha B-129 deixou boquiaberto o tribunal em que Milosevic foi julgado ao descrever seu trabalho como assistente de confiança de Zeljko Raznatovic – mais conhecido como Arkan – empreendedor sérvio com mandados de prisão emitidos por toda a Europa.

Na guerra dos Balcãs, no início dos anos 1990, Raznatovic criou uma milícia, os Tigres, ou Guarda Voluntária da Sérvia. Eles logo ganharam fama por fazer saques, tráfico, e cometer assassinatos na Croácia e na Bósnia. Milosevic afirmou durante o processo em Haia que não sabia nada a respeito das atividades dos Tigres.

Porém, citando detalhes meticulosos do livro de registros do escritório entre 1994 e 1995, a Testemunha B-129 afirmou que Raznatovic e os Tigres eram controlados, recebiam ordens e eram pagos pela inteligência de Milosevic e seus chefes de segurança. Parte de seu trabalho era contar o dinheiro e colocá-lo em envelopes para os milicianos, afirmou ao tribunal. Raznatovic jamais enviou seus homens à batalha sem ordens dos assessores de Milosevic, acrescentou, e ele falava abertamente que jamais fazia prisioneiros.

Raznatovic foi indiciado por crimes de guerra em 1997, porém, foi assassinado no lobby de um hotel em Belgrado, em 2000.

‘Uma testemunha extraordinária’, recordou um antigo promotor, falando a respeito da Testemunha B-129. Em uma carta, outro promotor escreveu que suas evidências mostravam a total cumplicidade da Sérvia com os Tigres ‘criminosos’.

Durante uma das muitas entrevistas que ela concedeu, contou ter ido trabalhar para Raznatovic porque era estudante de direito na época e precisava de dinheiro. No começo, acreditava que os Tigres estivessem lutando para defender o povo Sérvio, mas acabou se desiludindo. ‘Eles faziam aquilo pelo poder e porque gostavam de matar’, afirmou. ‘Queriam traficar e ganhar muito dinheiro. E muitas pessoas morreram sem razão’.

Sua raiva fez com que ela decidisse testemunhar em 2003, depois de assistir ao julgamento do ex-presidente iugoslavo. ‘Milosevic mentia e negava tudo, inclusive seus laços com Arkan’, afirmou. ‘Senti que deveria falar. Vi coisas que a maioria das pessoas não sabia ou não admitia’.

Quando voltou para casa depois de testemunhar, encontrou um policial a paisana em frente a seu prédio. Algumas semanas depois, parentes seus começaram a receber ameaças pelo telefone. Certa noite, enquanto atravessava a rua, um carro tentou atropelá-la. Ela disse que reconheceu o motorista, o mesmo agente da polícia secreta que estava montando guarda em frente a sua casa.

Membros do tribunal agiram rapidamente e tiraram-na do país junto com o marido, levando-os primeiro para a Croácia, e depois para um abrigo na Holanda. Eles tiveram de esperar 18 meses até que o governo europeu os aceitasse no programa nacional de proteção a testemunhas.

Em Belgrado, eles tinham casa própria. Ela era dona de uma escola de idiomas e o marido trabalhava para uma organização de ajuda internacional. Agora, eles não podem mais exibir seus diplomas e tiveram que aceitar trabalhos mal pagos de meio período em lojas, e se revezam nos cuidados dos três filhos, todos nascidos no exílio. As dívidas só crescem e os atrasos no pagamento do aluguel fizeram com que o casal fosse processado, afirmou.

Ela tem dificuldades de fazer amigos de verdade. ‘Sempre tenho medo de falar mais do que a boca’, afirmou. ‘Fico sempre doente e tenho que mentir para o médico sobre o que me deixa tão deprimida, me tira o sono e me faz ficar maluca desse jeito’.

Uma angústia constante causada pela perda de sua identidade sempre a persegue. ‘É difícil acreditar, mas há 10 anos eu era uma pessoa confiante’, afirmou, quase sussurrando. ‘Agora tenho ataques de pânico antes de ir ao banco ou ao supermercado. Sinto como se tivesse feito alguma coisa errada. Viver escondendo a verdade me faz parecer uma criminosa’.

Há cinco anos, quando foi pressionada a testemunhar em um segundo julgamento, ela fez o promotor e os policiais que cuidam do caso prometerem que iriam vender seu apartamento em Belgrado, para que ela pudesse pagar suas dívidas. ‘Eu não posso vender o apartamento’, afirmou. ‘Não posso mais provar quem eu sou’.

Atualmente, ela ainda espera pela venda do imóvel, enquanto um emaranhado de documentos vai e vem entre o tribunal e a polícia. ‘Não posso recorrer a nenhum tipo de ajuda legal, porque não sou criminosa’, afirmou, com um sorriso fraco.

A polícia recentemente concedeu um empréstimo, como adiantamento pela venda do apartamento.

Este ano, com passaportes e nomes novos, o casal pôde finalmente fazer uma viagem curta para a Sérvia, pela primeira vez desde que saíram, há 11 anos.

Mas a Testemunha B-129 não consegue se livrar da sensação de que o sacrifício foi em vão. Milosevic morreu na prisão em 2006, antes do fim do julgamento. Duas autoridades sérvias contra as quais ela testemunhou foram absolvidas recentemente.

‘Eu me sinto usada’, afirmou. ‘Eles estão livres na casa deles, e eu estou presa nessa vida. Minha situação é muito pior, e não cometi crime algum’. Marlise Simons- The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

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