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Um gosto agridoce depois da Copa

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em julho 16, 2014

Depois de ficar ‘nu’ diante do mundo, o Brasil faz o balanço do Mundial em casa: foi bem onde se esperava que fosse mal, e foi mal onde se esperava que fosse bem

Um menino equilibra a bola na cabeça, ontem em Brasília. / Fernando Bizerra (EFE)

Melhor tomar de 7×1 da Alemanha do que ver a Argentina campeã em casa, exagerava um internauta brasileiro nas redes sociais. Como ele, milhões de brasileiros festejaram a vitória alemã na final da Copa, e se refestelavam com uma doce vingança contra os argentinos, cantando uma versão nacional da irritante musiquinha que a torcida celeste usou para provocar o Brasil: “Argentina, me diga como se sente, perdendo na casa do seu pai”. Foi o último suspiro de alegria do Mundial, que começou no dia 12 de junho, com todas as desconfianças do planeta.

O evento bem organizado, que recebeu elogios da mesma mídia internacional que criticava o país até a véspera do dia 12, deixou o país mais feliz. Mas, a fragorosa derrota para a hoje tetracampeã do mundo no futebol acabou num saldo agridoce. O país está feliz porque organizou bem a festa, e se sente traída por uma seleção fraca, que tinha 100% de dependência em um talento individual – Neymar – sem percepção de conjunto. Fomos bem onde se esperava que iríamos mal e fomos mal onde se esperava que nos sairíamos bem, concluíram vários observadores.

É verdade que nem tudo foi perfeito e houve excessos, como o quebra-quebra nos ônibus, e cenas de vandalismo no final do dia da vergonhosa partida do 7×1. Foram registrados dois acidentes horríveis que mataram dois jornalistas argentinos que cobriam sua seleção, e um viaduto que desabou em Belo Horizonte, na véspera da semifinal, matando outras duas pessoas.

Apesar de tudo, os brasileiros se mostram felizes por terem vivido um período de festa continuada, ao sediar a Copa. “Foi muito bom pra gente, tivemos mais turistas do que nunca”, diz o garçom Francisco, de Fortaleza. “Só a seleção brasileira que era muito ruim”, afirma. O mineiro Rafael Eiras foi a oito jogos e viajou o país todo. Elogiou a organização, mas reclamou do preço. “Ingressos e viagens aéreas muito caras”, reclamou.

Isso limitou o acesso de muitos brasileiros aos estádios, mas quem não pôde ir pessoalmente conseguiu ver jogos fabulosos na televisão nesta edição do Mundial. Seleções guerreiras, como a Holanda, Costa Rica e, claro, a Argentina, que mostraram sede de bola, e tomaram poucos gols, ao contrário do Brasil, que tomou dez gols nas duas últimas partidas. O alento futebolístico veio compensar o ranço que perdurou entre junho de 2013, com as manifestações, e o início da Copa, quando perdurou o movimento “Não vai ter Copa“.

O que ficará depois dessa experiência, já começou a ser debatido no dia seguinte à derrota para a seleção alemã. Um menino na arquibancada que chorava desoladamente, enquanto o Brasil era goleado, personificou a dor daquele instante. A Rede Globo foi até a casa dele no dia seguinte, e o pequeno, que se chama Tomás, e tem 9 anos, explicou porque explodiu um lágrimas no estádio, diante da derrota horripilante. “Quando a gente é apaixonado por futebol, qualquer coisa pode desequilibrar a emoção”, tentava teorizar o torcedor mirim. No mesmo dia, em um programa feminino, quatro apresentadoras analisam a fragorosa derrota. “É um tragédia, mas também não é um Bateau Mouche”, em alusão ao barco que afundou na virada de 1988, e que matou 55 pessoas, entre elas a atriz Yara Amaral, da rede Globo.

O 7×1, e o desempenho da seleção brasileira na Copa de 2014 – que incluiu a derrota para a Holanda por três a zero no último sábado – é, certamente, daquelas vergonhas que serão escondidas embaixo do tapete, como tantas que cada país procura omitir, pelo menos para o resto do mundo. Mas tudo ainda é recente, e a dor brasileira foi vista mundialmente. O Brasil ficou nu, com sua luz e sua sombra. Mostrou hospitalidade e foi elogiado por turistas que visitaram o país durante a Copa. Mas também exibiu seu próprio racismo, contra Zuñiga, por exemplo, nas redes sociais, quando ele atingiu Neymar e o deixou fora do jogo. O jogador colombiano foi chamado de macaco, e ofensas grosseiras chegaram a sua filha e a sua mãe, quando ele exibiu fotos delas em sua conta no Twitter.

Houve, ainda, excessos da polícia, como no episódio de expulsão de turistas com bombas de gás, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, no último dia 2, ou ainda, com o emprego de força contra os manifestantes na final da Copa, no Rio de Janeiro, que chegou a atingir jornalistas estrangeiros. Problemas domésticos que continuarão sendo debatidos quando os turistas forem embora.  – http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/14/deportes/1405354101_467000.html

Essa loucura tão argentina

A piada começou antes da Copa do Mundo com a famosa canção que um torcedor inventou no chuveiro: “Brasiiillll decime qué se sienteee, tener en casa a tu papáaa…”

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Messi e seus colegas celebram um gol contra o Irã. / getty

A piada começou antes da Copa do Mundo com a famosa canção que um torcedor criou no chuveiro: “Brasiiillll decime qué se sienteeeeee, tener en casa a tu papáaaaa…”. Seu pai? Alguém que só venceu duas copas diz ao único pentacampeão mundial que é seu pai? E tudo porque na Copa de 1990 Maradona fez uma grande jogada contra o Brasil, que culminou com um gol e a partida terminou em 1 a 0 para a Argentina. Parece não importar a Argentina ter perdido aquela Copa do Mundo. Nem o Brasil ganhar a Copa dos EUA em 1994, enquanto o papai caía nas oitavas. Ou o Brasil disputar a final 1998, depois de a Argentina cair nas quartas, nem tampouco o Brasil levar a Copa de 2002, com o papai eliminado na primeira rodada.

“Você vai ver o Messi…”, dizia a canção, “Maradona é maior que Peléeee”. Os brasileiros insistem que Pelé ganhou três Copas e Maradona uma. Mas a música era irresistível e os jogadores argentinos dançaram ao ritmo dela. A Argentina parecia desfrutar da sorte dos vencedores.

A que se deve essa overdose confiança tão necessária no futebol? Dizem que ele está nos genes. Por quê? Há muitas respostas.

Alguns ficaram no grupo da morte, mas a Argentina ficou no da sorte. E, mesmo assim, viu-se em apuros. Ganhou da Bósnia por 2 a 1 com um gol contra de Kolasinac; ganhou do Irã, por 1 a 0 aos 90 minutos; venceu a Nigéria por 3 a 2. Então enfrentou a Suíça, que só foi capaz de derrotar aos 118 minutos. Ganhou da Bélgica por 1 a 0. E a Holanda foi vencida nos pênaltis em uma das partidas mais soporíferas da Copa do Mundo.

Nessa altura, a Argentina sentia-se capaz de tudo. O país surfava numa onda de otimismo. Parecia uma coisa de loucos considerando que a Alemanha acabava de marcar 7 gols contra o Brasil. Mas chegou a final e a Argentina poupou a vida da Alemanha até três vezes. Com Di Maria no banco. Com meio Messi. E lá estavam eles, a um passo da glória graças a essa loucura.

A que se deve essa overdose confiança tão necessária no futebol? Dizem que está nos genes. Por quê? Há muitas respostas. Mas vamos ficar com a que arriscou um dos argentinos mais ilustres, Domingo F. Sarmiento, em seu Facundo, nos idos de 1845, quando o país tinha apenas 30 anos no mundo: “Este hábito de triunfar com as resistências, de se mostrar sempre superior à natureza, desafiá-la e derrotá-la, expõe prodigiosamente o sentimento da importância individual e da superioridade. Os argentinos, de qualquer classe que sejam, civilizados ou ignorantes, têm plena consciência do seu valor como nação; todos os demais povos americanos jogam-lhes na cara essa vaidade, e se mostram ofendidos por sua presunção e arrogância. Acho que a acusação não é de todo infundada, e não me lamento por isso. Ai do povo que não tem fé em si mesmo! Para esse não foram feitas as grandes coisas”.  – http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/15/deportes/1405446928_266197.html

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