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Israel ordena que 100.000 palestinos evacuem suas casas

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em julho 16, 2014

O Exército israelense bombardeou as casas de líderes do Hamas

Vários palestinos fogem de suas casas no bairro de Shuyaiya, hoje em Gaza. / L. Pitarakis (AP)

Israel continuou na noite de terça-feira os bombardeios sobre a Faixa de Gaza, onde as autoridades informaram que o número de palestinos mortos em uma semana já ultrapassou 200. Vários ataques foram direcionados contra as casas particulares de pelo menos cinco líderes do Hamas, entre eles o ex-ministro das Relações Exteriores do Governo de Gaza, Mahmoud Zahar. Na quarta-feira de manhã, os palestinos nos arredores da Cidade de Gaza receberam chamadas automáticas e mensagens de texto em seus celulares alertando-os a evacuar Shujaya e Zeitun, dois bairros sob ameaça de bombardeio iminente.

Além disso, a aeronáutica lançou milhares de folhetos nos subúrbios da maior cidade palestina. De acordo com fontes oficiais, os avisos para a evacuação da cidade de Gaza distribuídos na quarta-feira afetam mais de 100.000 palestinos, aos quais se somam os que fugiram depois dos alertas emitidos no norte de Gaza desde o fim de semana. Nem os panfletos, nem as chamadas telefônicas explicam onde poderiam abrigar-se as dezenas de milhares de deslocados, que não podem sair da Faixa de Gaza nem por Israel nem pelo Egito. Sob os bombardeios israelenses, Gaza parece, mais do que nunca, uma grande prisão para 1,8 milhão de palestinos.

Na terça-feira, morreu o primeiro israelense atingido por fogo palestino desde o início dos pesados bombardeios: um civil de 37 anos que levava comida aos soldados posicionados junto à fronteira com Gaza, à espera de uma possível invasão terrestre. Ele morreu em consequência dos ferimentos causados pelos estilhaços de um morteiro. Na terça-feira, Israel observou um cessar-fogo unilateral por quase seis horas após o seu Gabinete de Segurança decidir aceitar uma proposta egípcia para um cessar-fogo. O Hamas disse que não foi consultado sobre o plano de trégua e continuou a disparar foguetes durante o cessar-fogo unilateral de Israel, cerca de cinquenta no total.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse nesta terça-feira que a continuidade dos disparos dá a Israel a “legitimidade para expandir a operação” contra Gaza.

A mensagem dos folhetos israelenses na quarta-feira é que “apesar da iniciativa de cessar-fogo”, proposta pelo Egito na segunda-feira à noite, “o Hamas e outros grupos terroristas” continuaram a lançar foguetes contra Israel, que revidará com bombardeios maciços nessas áreas de Gaza.

Declarações do primeiro-ministro israelense e o ministro de Defesa. / Reuters Live!

A noite foi menos violenta do que muitos temiam depois do fracasso da iniciativa egípcia. Pela manhã, os bombardeios e as explosões continuavam a um ritmo menor do que na semana passada. No entanto, veio de Israel a notícia de que as Forças Armadas preparam bombardeios maciços no bairro de Shujaya em Gaza. Nas primeiras horas do dia, fortes explosões foram ouvidas no centro da cidade. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/16/internacional/1405492286_551846.html

O que vai acontecer em Gaza agora?

As infraestruturas estão destruídas e a população se pergunta quem vai consertá-las

Enquanto estou aqui sentado no meu escritório/dormitório na Cidade de Gaza, escutando os ataques aéreos e os disparos de foguetes, discute-se como acabar com a violência. É algo extremamente desejável, sobretudo para a população civil de Gaza, que tem sido a mais castigada pela atual escalada. Mas quando penso nos 17.000 desabrigados refugiados em escolas, com alguns dos quais conversei na terça-feira, me pergunto o que devem estar pensando disso. Porque eles já viveram tudo isso antes. Para a maioria, esta guerra é o terceiro desalojamento desde 2009; muitos voltaram exatamente para a mesma sala de aula de antes. Se este possível cessar-fogo terminar da mesma forma que os anteriores, será que essas pessoas vão acreditar que se trata de algo mais do que uma breve trégua?

Para Gaza, o retorno à “calma” é um retorno ao oitavo ano de bloqueio. É um retorno a mais para os 50% da população que não têm trabalho nem salário. É um retorno ao confinamento em Gaza e à falta de acesso externo aos mercados, aos empregos e à educação; em suma, à falta de acesso ao mundo lá fora.

Por exemplo, se uma das avós com quem conversei na terça-feira quisesse ir estudar na Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, ela simplesmente não poderia. O Governo israelense não tem que demonstrar que essa avó representa uma ameaça concreta para a segurança, já que adotou uma proibição generalizada de que os habitantes de Gaza estudem na Cisjordânia, com base em uma indefinida ameaça à segurança. A imensa maioria da população está proibida de sair dessa faixa de terra de 356 quilômetros quadrados.

Se um dos cultivadores de tomate com quem me encontrei na terça-feira encontrar um comprador para seu produto em Paris, Peoria ou Praga, ele pode, sob determinadas condições, embalar os tomates e enviá-los através do único posto de fronteira comercial aberto, de onde seguiriam para o porto de Ashdod ou o aeroporto Ben Gurion (dois dos pontos mais vulneráveis de Israel em relação à segurança). Mas, infelizmente, não há mercado para os tomates de Gaza em Paris, Peoria ou Praga. Há mercado para os tomates de Gaza em Israel e na Cisjordânia, mas esse agricultor não tem permissão para vender seus tomates por causa dessa mesma indefinida ameaça à segurança.

Os idosos com quem me reuni na terça-feira se perguntam como poderão ter acesso aos postos de saúde após este cessar-fogo. Exceto pelos serviços oferecidos por nós, da Agência da ONU para os Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA, na sigla em inglês), e por alguns centros médicos particulares e de ONGs, o sistema público de saúde está afundando. As infraestruturas estão destruídas e a população se pergunta quem terá o papel de consertá-las. Se a Autoridade Palestina não tem permissão ou não pode fazer isso, espera-se que a comunidade internacional o faça? Ou será Israel, a potência ocupadora, quem deve assumir essa responsabilidade?

As mães com quem falei na terça-feira se perguntam se seus filhos irão à escola dentro de apenas seis semanas se não puderem ir a uma das 245 escolas da UNRWA. Quem vai consertar o que está destruído nas escolas públicas, quem vai fornecer os livros, quem vai pagar os professores? Se os colégios públicos não abrirem, espera-se que a UNRWA preencha essa lacuna? Falta-nos capacidade física e recursos humanos e econômicos para aceitar dezenas ou até centenas de milhares de alunos extras nas nossas escolas.

A UNRWA e toda a ONU em geral, incluindo o PAM, a UNICEF, o OCHA e o PNUD continuam comprometidos em atender às necessidades humanitárias do povo de Gaza. Uma das áreas nas quais a UNRWA redobrou seus esforços nos últimos anos foi a da construção civil, na qual contamos com uma grande quantidade de projetos. São principalmente escolas para nosso programa de educação, nas quais ensinamos mais de 230.000 crianças no ano passado, e de casas para aqueles cujos lares foram destruídos nos conflitos anteriores ou destruídos por Israel. Quando queremos construir algo, temos que enviar uma proposta detalhada do projeto para Israel, com o esboço, a localização e um orçamento completo. Em seguida, os israelenses analisam a proposta, num processo que, em tese, não deveria precisar de mais de dois meses, mas que dura, em média, quase 20 meses. Não tivemos nenhuma aprovação de projetos entre março de 2013 e maio de 2014, durante o último período de “calma”, apesar de termos quase 100 milhões de dólares em projetos esperando para serem aprovados. Será que esta próxima época de “calma” será melhor?

E, acima de tudo, as pessoas aqui se perguntam quem vai governar Gaza. Ninguém tem a resposta para essa pergunta. Acredito que os habitantes de Gaza diriam que se esse é o tipo de “calma” que as pessoas têm em mente, mesmo que preferível à violência atual, ela não poderá durar. Não vai durar. Robert Turner é diretor de operações da UNRWA em Gaza. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/15/internacional/1405454676_203127.html

 

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