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Como eram os egípcios na cama?

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em julho 30, 2014

Uma apresentação no Congresso Ibérico de Egiptologia tratou do controvertido tema da sexualidade na época dos faraós

Uma cena apaixonada do filme O Retorno da Múmia, com a sedutora Anck-Su-Namum (Patricia Velásquez) e seu amante eterno, Imhotep (Arnold Vosloo).

Temos uma ideia geral da sexualidade do antigo Egito que se baseia em boa parte nas passagens libidinosas de O Egípcio de Mika Waltari – Nefernefer nua nadando numa piscina -, no profundo decote da voluptuosa Cleópatra de Elizabeht Taylor e nos romances de Terenci Moix, nos quais não é raro que um escravo queira soprar na flauta do faraó. Mesmo os filmes de múmia têm um componente erótico – lembre-se do papel de Patricia Velásquez como Anck-Su-Namum e suas roupas reduzidas em O Retorno da Múmia. Apoiada em ingredientes como esses, prevaleceu a ideia popular de que a civilização da época dos faraós tinha, em estranha combinação com a obsessão pela morte e o além, e um sentido bastante espiritual da existência, um alto componente de lascívia e falta de pudor, como testemunhariam, por outro lado, as imagens arqueológicas de bailarinas semi-nuas, princesas com roupas transparentes e deuses com falo ereto.

Mas como eram, na verdade, os antigos egípcios nesse aspecto tão íntimo de sua cultura? Como eram, para falarmos de forma aberta, na cama? Um povo tórrido como seu clima? É difícil se enfiar nas alcovas de um povo desaparecido e o tema foi pouco tratado, algo que não é estranho por causa do puritanismo de uma disciplina que esteve nas mãos dos egiptólogos anglo-saxões. Existem uma monografia, canônica, Sexual life in ancient Egypt, de Lise Manniche (1987), e na Espanha um livro descontraído, com muita informação, do doutor em História Antiga pela Universidade Complutense José Miguel Parra Ortiz, Vida amorosa en el antiguo Egipto (Aldebarán, 2001). Em todo caso, o desenho que aparece através dos escassos indícios oferece uma realidade muito diferente do clichê popular.

Frente à falta de investigações neste terreno, acaba sendo muito interessante a que está realizando  o estudioso catalão Marc Orriols sobre a iconografia erótica do antigo Egito, que ele apresentou no III Congresso Ibérico de Egiptologia, em La Laguna (Tenerife) e no qual, sob os auspícios da Universidade de La Laguna, seu Centro de Estudos Africanos e o Instituto de Astrofísica das Canárias, participaram os maiores egiptólogos espanhóis. Orriols, que trabalha basicamente com a época do Império Novo, centrou-se na análise da cópula a tergo (por trás) que aparece especialmente representada nas famosas óstracas (fragmentos de pedra de calcário com desenhos informais) e grafites da cidade dos construtores de tumbas de Deir el Medina. A tergo? “Bem, por trás, mas por via vaginal”, explica o investigador com o tom mais neutro que é capaz. “Dispomos de poucas representações da cópula humana na iconografia egípcia e a que aparece com mais frequência é essa posição com o homem penetrando a mulher desta forma. Isso levou a supor que se tratava de uma prática habitual, talvez a forma característica de fazer isso no antigo Egito.”

Desenho de uma óstraca de Deir el Medina.

O antes citado Parra é, precisamente, um dos que sustentam, em seu livro, que os egípcios tinham essa inclinação (que escolha de palavra). “No entanto, quando comecei a estudar o tema”, diz Orriols, “fiquei surpreendido de que na célebre análise da conduta sexual de 190 culturas humanas de Beach e Ford (Patterns of sexual behavior, 1955), não aparecia nenhuma na qual fosse preponderante a cópula por trás. Por que ia ser uma posição canônica então no Egito faraônico? Acho que é preciso procurar outras explicações, outra forma de ligar cultura e prática. Minha ideia é que essas representações não representam, na verdade, cópulas por trás, mas em sua maioria, sexo anal.”

Orriols centrou-se no estudo da cópula “a tergo”, por trás

Orriols considera que se trataria não de cenas sensuais, mas de algum tipo de humilhação, de demonstração de poder sobre opartenaire (a sodomização era isso no Egito faraônico; passividade = debilidade) e que os protagonistas seriam ambos masculinos em uma proporção maior do que parece.

Então, se os egípcios não faziam isso na maior parte das vezes a tergo, como faziam? Tinham alguma preferência? “A verdade é que não sabemos”, reconhece Orriols. “O que é significativo é o pouco que aparece o ato sexual em geral no mundo egípcio, antes da época greco-romana. Temos uma relativamente abundante iconografia referindo-se ao ato sexual entre divindades, mas pouquíssimas no âmbito humano, pouco mais do que trinta cópulas no total”. Certamente, os egípcios contavam em seu panteão com o deus Min, em perpétua ereção; Hathor podia ser bastante desinibida, e Geb e Nut e Osíris e Ísis (cada casal por seu lado) aparecem de maneira recorrente em imagens por todo o Egito. Mas tratava-se de uniões sagradas.

Por outro lado, no âmbito privado, cotidiano, explica Orriols, “temos pouca coisa, as óstracas, algum grafite como o de Wadi Hammamat. E temos o excepcional papiro erótico de Turim, de época ramésida, no qual aparecem desenhadas uma série de encontros sexuais muito explícitos entre homens adultos com grandes pênis e mulheres jovens no que foi interpretado com frequência como cenas de um bordel”. No papiro há nove cenas de cópulas, 3% a tergo. “Os desenhos de homens e seus desmesurados membros e as posturas acrobáticas das mulheres sugerem que estamos na frente de uma peça satírica, mas a verdade é que não conhecemos o propósito do papiro, que é um exemplar único.”

Parra, que também participou do congresso – com uma apresentação sobre um assunto tão atual quanto a violência doméstica (mas no contexto do antigo Egito) -, opina que o papiro de Turim poderia guardar a lembrança das vivências de um personagem em um prostíbulo, montado por ele para seu ócio pessoal.

A felação não está documentada ainda, com a exceção de algum deus muito elástico

Além da cópula a tergo, está representada no Egito a posição do missionário, mas “só em duas cenas, uma delas duvidosa”, diz Orriols. A outra, com uma garota na cama e um homem penetrando-a por cima, “parece ser um determinativo”, um sinal da escrita hieroglífica e não uma imagem erótica propriamente dita. Também existe alguma representação do que parece ser sexo em pé. Nos textos aparece algo de fetichismo, algumas alusões a pedofilia, prostituição masculina e zoofilia. Pouco mais. Nada que se possa comparar com a proliferação de cenas sexuais na Grécia ou Roma (pensemos na desavergonhada Pompeia). A felação não está documentada ainda – com a exceção de algum deus muito elástico que fazia em si mesmo -, apesar do querido Terenci.

Grafite de Deir el-Bahari que acredita que representa Hatchepsut copulando.

Os egípcios eram, então, um povo pacato? “Ao contrário do clichê, acho que sim”, aponta Orriols. “Eram explícitos em textos sagrados, mas não, em geral, nos profanos. Se não existisse alguma espécie de tabu, a cópula apareceria representada graficamente, de forma mais abundante e oficial. Por exemplo, no contexto funerário.” A fama de atrevidos dos egípcios “vem das fontes clássicas greco-latinas que imaginaram o Oriente como um lugar de luxo e luxúria”. A propaganda romana contra Cleópatra, que a chamava de libertina, também contribuiu. “Os egípcios usavam pouca roupa pelo calor e a nudez é habitual na representação dos trabalhadores. Isso pode terminar sendo erótico para nós, mas certamente não era para eles. Acontece o mesmo com as transparências dos vestidos. Talvez a marcada sexualização das mulheres tinha algum significado relacionado com a fertilidade mais do que com o erotismo.” Tudo isso não quer dizer que para os egípcios, o sexo tivesse conotações pecaminosas no sentido judaico-cristão. O ato sexual com penetração – transar, quer dizer – não apresentava, segundo explica Lynn Meskell em seu estupendo Private life in New Kingdom Egypt (2002) nenhuma conotação, nem positiva nem negativa. Era chamado de nk. Então este era o termo, para continuar procurando. http://brasil.elpais.com/brasil/2006/09/18/cultura/1158530401_850215.html

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O cinema chinês já não quer se calar

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em julho 30, 2014

A censura a ‘Um toque de pecado’, o último filme de Jia Zhang-ke, faz com que diretores locais se levantem contra o governo

  • O filme chinês ‘Bai Ri Yan Huo’ leva o Urso de Ouro

Uma estátua de Mao Tsé-tung em uma cena de ‘Um toque de pecado’.

Cerimônia de gala televisionada ao vivo. Por um canal nacional, o CCTV-6. Em um horário de audiência máxima, para que toda a China visse. Quinta edição do prêmio do Sindicato dos Diretores chineses, o único concedido pela indústria. O objetivo é imitar o Oscar e exibir com orgulho as conquistas do cinema chinês. É 9 de abril de 2014. Tapete vermelho, enfeites dourados e rostos conhecidos. E, de repente, a festa se transforma em um ato de protesto. O júri decide que os prêmios principais – melhor direção e melhor filme – não serão outorgados.

Assim se chamou a atenção para a dureza da censura, que proibiu a exibição na China de Um toque de pecado, de Jia Zhang-ke, que foi considerado o melhor filme do ano por seus colegas – e estreou sexta-feira na Espanha. “Não é preciso falar mais sobre esta decisão”, afirmou Feng Xiaogang, presidente do júri e um dos cineastas mais populares do país. “Em vez disso, devemos pensar em estabelecer padrões de qualidade melhores, que nos façam orgulhosos”, prosseguiu o realizador de O funeral do chefão. Os jurados também entregaram um polêmico prêmio, o de melhor atriz para Tang Wei, por Encontrando o homem perfeito: Tang sofreu um boicote da mídia oficial anos atrás pelo conteúdo sexual de suas cenas em Desejo e perigo, de Ang Lee.

E mais: dias antes, em fins de março, Feng e Jackie Chan, que também colaboram como assessores políticos de seu governo, deram um murro na mesa na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês – uma espécie de Senado –, no Grande Palácio do Povo, e apresentaram queixas aos líderes do Partido Comunista. “Não façam com que os diretores tremam de medo todo dia”, disse Feng. “Atualmente, terminar um filme depende de alguns revisores. Será que seu patriotismo, senso político ou gosto artístico são melhores que os nossos?”, acrescentou Feng, segundo o jornal South China Morning Post. Jack Chan seguiu a mesma linha: “Se um filme for cortado pela censura, sua bilheteria sofrerá muito e isso acarretará resultados desastrosos para os produtores. Se os filmes chineses não forem levados a sério em sua comercialização, dificilmente superarão Hollywood”. No fundo, havia uma amarga reflexão: por que o Governo permite a estreia de filmes americanos como Assalto à Casa Branca, que são um grande sucesso de bilheteria, e afundam as obras nacionais planejadas para ter o mesmo êxito? “Porque é algo aceitável para as autoridades chinesas, já que mostram que o capitalismo é caótico”, refletia Feng, acrescentando: “Os filmes chineses não podem fazer isso, já que, pelo visto, não temos violência nem corrupção policial”.

Devemos pressionar com os roteiros para que o sistema caia”, defende o cineasta Jia

Violência, corrupção política e policial. Exatamente os temas centrais de Um toque de pecado, o melhor roteiro em Cannes 2013. Jia não é um desconhecido. Nascido em 1970 em Fenyang, na província de Shanxi, estudou, como seus grandes predecessores, na Academia de Cinema de Pequim. Todos os seus filmes obtiveram muita repercussão em competições internacionais. Mas o salto para a fama veio em 2007, quando Natureza morta conquistou o Leão de Ouro em Veneza. Ele sempre teve problemas com a censura, e reconhece que só pôde ver filmes de gerações anteriores de cineastas chineses quando entrou na universidade, “porque só eram acessíveis para os investigadores”. Jia é um tipo sorridente, que não foge de nenhum assunto: “A mídia chinesa se surpreendeu por terem autorizado a exibição de meu filme em diversos festivais. Por que não? Ele fala do que ocorre na China, eu me baseio em quatro histórias reais. Parece-me mais perigosa a autocensura do que a censura oficial”. Ele acrescenta: “Ela não deveria ocorrer, é claro. Essa sombra nos acompanha há décadas. Devemos lutar, pressionar com nossos roteiros para que o sistema caia. Não se pode escrever com o medo de não passar pela censura. Chegará o momento em que ela desaparecerá”.

Um toque de pecado é o menos realista de seus filmes, apesar de ser baseado em histórias autênticas que Jia conheceu pelo Weibo, o Twitter chinês. “Elas tiveram enorme repercussão em meu país. Fizeram-me refletir sobre por que alguém chega ao extremo de usar tanta violência, que desespero deve existir em seu interior. E também sobre que algo falha em nossa sociedade. Por isso, conto cada capítulo em uma província distinta, e diferente daquela em que o caso ocorreu na realidade, para que o público entenda a complexidade do problema e o aumento das desigualdades aonde quer que você vá.”

O cineasta Zhao Liang optou pela arte e pela fotografia para driblar a censura

Jia quer alcançar o máximo de pessoas possível. Por isso, Um toque de pecado é um filme wuxia, ou seja, de artes marciais, o que o afasta do realismo e o aproxima de um certo “surrealismo”, segundo o diretor. É um gênero literário e cinematográfico de muito sucesso no Extremo Oriente, utilizado até por Hollywood em, por exemplo, Tigre e dragão. “Não conhecia muito esses filmes. No entanto, sei que nesse gênero seus protagonistas encaram as dificuldades, não se amedrontam. Assim como em meu roteiro, buscam uma saída para o conflito social”. E será que é assim que estão as coisas na China? “Sim, devemos nos perguntar por que motivo ocorrem esses crimes. Só haverá menos violência quando solucionarmos os problemas de corrupção e desigualdade. Além disso, em meu país não se respeitam os indivíduos. Todos temos nosso orgulho – e o sistema tende a desprezá-lo. As pessoas precisam poder expressar-se, não há lugares onde reclamar, escritórios governamentais aos quais fazer uma queixa, e o único caminho que resta é o da violência”.

Há uma tradição chinesa para proporcionar certa válvula de escape para esses protestos: uma vez por ano, pessoas comuns viajam para Pequim para queixar-se dos poderes locais. Como não podem levar cartazes, suas reclamações são escritas em suas camisas brancas. Zhao Liang, outro respeitado cineasta chinês, dedicou um filme a essas peregrinações, Petição, que concorreu em 2009 em Cannes. Ele também não encontrou canais normais para estreá-la na China. Por isso, Zhao, um ano mais novo que Jia, mas da mesma geração de cineastas, buscou outras maneiras de expressão: a arte e a fotografia, que driblam com mais facilidade com a censura: “Eles podem controlar a mensagem, mas eu busco novas formas para ser fiel a mim mesmo”. O resultado foi visto há dois anos em Madri, na Cineteca, enquanto se exibia um ciclo com seus filmes: a instalação Lanterns (The petitioners) expunha a roupa em que esses reclamantes escrevem suas mensagens, agora plastificada e com luz na parte interna. Uma das calças tinha um remendo: era a autocensura do indivíduo que a usava, porque as pessoas podem se meter com o governo local… mas nunca com o Partido. Pedaço de tecido sobreposto e mensagem mudada. “Quero ganhar influência, que meus filmes não sejam vistos só por amigos e no exterior, que mais compatriotas observem o que está ocorrendo”, explicava na ocasião seu autor.

Cena de ‘Um toque de pecado’.

“Com o passar do tempo, tenho dúvidas sobre se o que faço importa. Conheço a sociedade e gostaria que as pessoas soubessem o que está acontecendo. Na China me dizem que deixe de mostrar os lados escuros, pedem que fale de coisas positivas. Idiotices. No cinema eu mostro as pessoas, seus problemas. Para mim, a sociedade chinesa se divide em duas partes: uma minoria de colarinho branco e uma maioria formada pelo povo. É claro que há fascínio pelas mudanças. Mas para onde elas vão?” Até entre os próprios criadores há classes. Zhao opinava desta forma sobre a perseguição ao artista chinês mais famoso, Ai Weiwei: “É um bom ator e conhece muito bem as regras do jogo”.

Jia também está preocupado com essas mudanças que, por exemplo, “têm deixado de lado o meio rural”. “A China sempre está mudando. Percebo isso, mas a velocidade, essa certa lentidão, não é a adequada. Por outro lado, eu viajo muito, e encontro a mesma violência no Ocidente. Ninguém está fazendo as coisas bem”. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/26/cultura/1406403946_517045.html

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Philip

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em julho 29, 2014

A partir das visitas de Le Carré à filmagem da adaptação cinematográfica de seu romance ‘O homem mais procurado’, o escritor cria um grande retrato do protagonista, morto em fevereiro

Philip Seymour Hoffman, em ‘O Homem Mais Procurado’.

Calculo que, no total, passei cinco horas falando pessoalmente com Philip Seymour Hoffman, no máximo seis. O resto do tempo, durante a filmagem de O homem mais procurado, me dediquei a me misturar com os demais, a observá-lo no monitor e dizer depois a ele que havia estado estupendo, ou a não dizer-lhe nada. E nem sequer isso aconteceu muitas vezes: um par de visitas ao set e um papel tonto sem diálogo que me obrigou a deixar uma barba repugnante, levou o dia todo para filmar e produziu uma imagem borrada de alguém que agradeci por não reconhecer. No mundo do cinema seguramente não existe ninguém que seja tão supérfluo como o autor do livro original na rodagem do filme baseado em seu texto, coisa que aprendi na minha própria dor. Alec Guinness me fez o favor de pedir que me tirassem do set em que se filmava a adaptação de El topo para a BBC. E eu só queria irradiar a admiração que sentia, mas Alec disse que meus olhares eram intensos demais.

Agora que penso, Philip fez o mesmo favor a uma amiga minha durante aquela filmagem de O homem mais procurado em Hamburgo, numa tarde de inverno em 2012. A mulher estava de pé a uns 30 metros dele, olhando e passando frio, como todos os outros. Mas havia nela algo que incomodou Philip, e pediu que a retirassem de lá. Foi uma reação curiosa, curioso, quase clarividente e muito acertada, porque minha amiga é também romancista, e pode ser mais intensa do que qualquer um. Philip não sabia. Mas intuiu.

Muitos atores fingem ser inteligentes, mas Philip era de verdade: culto, multifacetado, artístico e brilhante, com uma inteligência avassaladora

Em retrospectiva, não deveria ter me surpreendido com esse tipo de coisas em Philip porque, não sabendo de nada, sua intuição se destacava de forma luminosa, assim como sua inteligência. Muitos atores fingem ser inteligentes, mas Philip era de verdade: culto, multifacetado, artístico e brilhante, com uma inteligência que te avassalava e te envolvia desde o instante em que segurava sua mão, te enrolava o pescoço com seu enorme braço e colocava sua bochecha contra a sua; ou te abraçava como um menino grande e gorducho, e depois se separava e sorria encantado enquanto estudava o efeito que havia causado.

Philip estudava tudo, o tempo todo. Era um esforço doloroso e cansativo, que provavelmente acabou sendo sua ruína. O mundo era reluzente demais para ele. Tinha que apertar os olhos ou morrer deslumbrado. Como Chatterton, quando você ia, ele já estava de volta, e cada vez que ele desaparecia, você não tinha certeza de que voltaria, o mesmo que diziam, acho, do poeta alemão Hölderlin: que quando saía de uma casa, os que ficavam tinham medo de não voltar a vê-lo. E se parece que é fácil dizer a posteriori, não é assim. Philip estava se queimando vivo diante dos nossos olhos. Era impossível viver aquele ritmo e aguentar muito tempo, e de vez em quando tinha uns flashes surpreendentes de intimidade, os quais sabíamos que precisava.

Nenhum ator havia me impressionado tanto como me impressionou Philip em nosso primeiro encontro: nem Richard Burton, nem Burt Lancaster, nem sequer Alec Guinness. Philip me cumprimentou como se estivesse a vida toda desejando me conhecer, e suspeito que cumprimentava todo mundo assim. Mas eu sim que queria conhecê-lo fazia tempo. Seu Capote me parecia a melhor interpretação que já havia visto na tela. No entanto, não me atrevi a dizer a ele, porque com os atores, quando se diz a eles que estavam bem em um papel de nove anos atrás, sempre existe o perigo de que te perguntem o que houve de ruim em suas intepretações seguintes.

O que disse a ele foi que era o único ator norte-americano que considerava capaz de interpretar meu personagem George Smiley, um papel que foi encarnado pela primeira vez por Alex Guinness na versão da BBC de El topo e há alguns anos por Gary Oldman no cinema; claro que, como bom britânico, considero Gary Oldman um dos nossos.

Philip estudava tudo, o tempo todo. Era um esforço doloroso e cansativo, que provavelmente acabou sendo sua ruína

Talvez lembrei também que Philip, como Guinness, não era um grande amante nas telas, mas, por sorte, não precisávamos nos preocupar com isso em nosso filme. Se Philip tinha que pegar uma mulher em seus braços, não sentíamos vontade de virar o rosto como acontecia com Guinness, mas era inevitável a sensação de que estava fazendo pelo espectador mais do que por si próprio.

Os responsáveis por nosso filme debateram muito se podiam fazer com que Philip se deitasse com alguém, e é interessante pensar que, quando por fim propuseram uma possibilidade, tanto ele como sua parceira saíram correndo. Somente quando viram a magnífica atriz Nina Hoss a seu lado compreenderam que estavam diante de um pequeno milagre de fracasso romântico. Em seu papel, ao que em seguida se deu mais importância, Nina é apaixonada por Philip, sua discípula e braço direito, e ele parte seu coração.

Era perfeito para Philip. Seu papel de Günther Bachmann, um espião alemão de meia idade à deriva, não permitia amores duradouros nem de nenhum outro tipo. Philip havia tomado essa decisão desde o primeiro dia e, para deixá-la clara, levava a todas partes um exemplar manuseado do meu romance —o que mais pode querer um autor?— para hasteá-lo ante qualquer um que quisesse que houvesse mais sexo.

O filme O homem mais procuradoconta também com Rachel McAdams e Willem Dafoe. Foi filmado quase que por completo em Hamburgo e Berlim, e em seu elenco estão vários dos melhores atores da Alemanha em papeis relativamente humildes, não apenas a sublime Nina Hoss, mas também Daniel Brühl.

É difícil escrever com objetividade sobre a interpretação que Philip faz desse homem de meia idade que vai perdendo o controle sobre como perfila o rumo de autodestruição de seu personagem

No romance, Bachmann é um agente secreto que foi transferido a seu país desde Beirute após perder sua valiosa rede de espionagem devido à falta de jeito ou algo pior da CIA. Vive retirado em Hamburgo, a cidade que recebeu os conspiradores do 11 de Setembro. A seção regional dos serviços de inteligência e muitos de seus cidadãos ainda vivem envergonhados por isso.

A missão que se propõe a Bachmann é dar a volta na situação: não com equipes de sequestradores, torturas com água e execuções extrajudiciais, mas sim mediante a hábil penetração de integração dos espiões, utilizando o próprio peso do inimigo para derrubá-lo e acabar desarmando o jihadismo de dentro para fora.

Durante um jantar elegante com os responsáveis pelo filme e os principais membros do elenco, não lembro que Philip nem eu conversamos muito sobre o personagem concreto de Bachmann; falamos mais em geral, sobre coisas como a atenção e o cuidado que requerem os agentes secretos e o papel de guias e conselheiros que assumem seus chefes diretos. Esqueça as chantagens, eu disse. Esqueça as bravatas. Esqueça a falta de sonho, as pessoas fechadas em caixas, as execuções simuladas e outras técnicas reforçadas. Os melhores agentes, espiões, informantes ou como se quiser chamar —pontifiquei— precisam de paciência, compreensão e afeto. Gostaria de acreditar que o convenci com minha homilia, mas o mais provável é que estivesse pensando se poderia usar alguma vez essa expressão espessa que adoto quando estou tratando de impressionar alguém.

É difícil escrever com objetividade sobre a interpretação que Philip faz desse homem de meia idade que vai perdendo o controle sobre como perfila o rumo de autodestruição de seu personagem. Tinha um diretor, é claro. E o diretor Anton Corbijn, um homem tão culto e multifacetado como Philip, é maravilhoso em muitos aspectos: fotógrafo de prestígio mundial, pilar da cena musical contemporânea e objeto, ele mesmo, de um documentário. Seu primeiro filme, Control, em preto e branco, é emblematico. Atualmente está rodando um filme sobre James Dean. No entanto, quando o vi trabalhar, seu talento criativo me pareceu sempre introvertido e soberano. Acho que ele seria o primeiro a reconhecer que não é um dramaturgo teórico nem sabe transmitir com eloquência o que pensa da vida interior de um personagem. Philip tinha que manter esse diálogo consigo mesmo, e devia ser um diálogo macabro, cheio de perguntas como: “Em que momento exato perco todo o sentido da moderação?” Ou: “Por que insisto em seguir em frente com tudo isto quando, no fundo, sei que não posso acabar mais do que em tragédia?”. Mas a tragédia atraia Bachmann, e Philip também, como as luzes falsas atraem os barcos naufragados.

Houve um problema com os sotaques. Tínhamos alguns atores alemães muito bons que falavam inglês com sotaque alemão. A opinião geral era, de forma um pouco arriscada, que Philip deveria fazer o mesmo. A primeira vez que o ouvi foi estranho. Não conhecia nenhum alemão que falasse inglês assim. Fazia algo estranho com a boca, uma espécie de biquinho. Parecia beijar suas frases, mais do que dizê-las. Mas então, pouco a pouco, começou a fazer o que só os melhores atores sabem fazer. Conseguiu que sua voz fosse a única autêntica, a solitária, a peculiar, a que te obrigava a depender dela em meio a todas as demais. E cada vez que saia de cena, como cada vez que saia seu dono, nos deixava esperando sua volta com impaciência e cada vez mais com inquietude. Levaremos muito tempo para conhecer outro Philip. © David Cornwell, 2014 – http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/26/cultura/1406403602_139009.html

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Calvin e Haroldo viram adultos

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em julho 29, 2014

O criador da famosa tirinha volta depois de 19 anos de silêncio

Cartaz de Bill Watterson para o filme ‘Stripped’.

Bill Watterson publicou a última tira de Calvin e Haroldo em 25 de dezembro de 1995. Aqueles quatro quadrinhos, coloridos, no formato dominical, são uma das grandes obras-primas das HQs: Calvin e seu tigre acordam e descobrem uma paisagem completamente coberta de neve. “É um mundo mágico, Haroldo, velho amigo. Vamos explorá-lo!”, exclama o menino antes de se lançar à aventura. Com essas palavras, foi encerrada uma década de desenhos que conseguiram uma relação insólita com os leitores e que finalmente demonstraram que tiras cômicas não eram coisa só de criança. Após aqueles desenhos, Watterson desapareceu da vida pública e se tornou uma espécie de Thomas Pynchon dos quadrinhos, apesar de uma ter adotado uma faceta taciturna à la J. D. Salinger.

Só existe um retrato dele, sorrindo na frente de sua escrivaninha. Ele não permitiu nenhum tipo de comercialização de seus personagens (qualquer camiseta ou bichinho de pelúcia de seus personagens é um produto pirata), poderia ter ganhado milhões, mas se recusou: defendeu com uma coerência incomum a pureza da tirinha sem querer transformá-la numa indústria. “É sempre melhor ir embora da festa cedo. Acredito que o motivo principal pelo qual Calvin e Haroldo ainda encontra público é porque preferi não sobrecarregá-la. Nunca me arrependi de parar naquela hora”, declarou Watterson por e-mail na única entrevista que concedeu durante seu longo período de silêncio. O jornal escolhido por ele significava uma declaração de princípios: o Plain Dealer, de Ohio, porque é no município de Chagrin Falls, nos arredores de Cleveland, naquele Estado, onde ele vive. Cumpriu sua promessa e não voltou a publicar. Até agora: 19 anos depois daquela mítica tira, Watterson voltou.

Uma década de Calvin

Calvin e Haroldo foi publicada por jornais de todo o mundo durante dez anos, entre 1985 e 1995. Seus protagonistas são um menino de imaginação desatada e pouca noção de autoridade e seu tigre de pelúcia, que ganha vida quando os dois estão a sós.

Em 1995, Bill Watterson parou de desenhar as tiras e nunca permitiu nenhum tipo de comercialização de seus personagens.

Trata-se de um retorno à altura do personagem: discreto, humilde e com muito senso de humor. Watterson não tentou competir consigo mesmo com um projeto ambicioso ou ressucitando Calvin, mas mostrou o mesmo amor pelo desenho que marcou toda a sua obra. Voltou aos jornais de uma maneira extraordinária: emplacou três tiras no Washington Post, mas ninguém sabia que eram suas antes da publicação, já que pediu emprestado o espaço a outro cartunista, Pastis, e imitou seu estilo com certa ironia (o jornal que revelou o caso Watergate se viu com o artigo exclusivo mais exótico de sua longa existência porque nem sabia que o levava em suas páginas).

Ele também criou o cartaz de um filme sobre autores de quadrinhos cômicos, Stripped, um documentário para o qual também dá um depoimento, e aceitou desenhar o poster do próximo Festival de Angoulême, que abrigará também uma exposição, após ter recebido, o Grand Prix este ano. Mas não pretende viajar até a cidade francesa que acolhe o mais conhecido evento de quadrinhos do mundo. E até foi lançado um documentário sobre ele, Dear Mr. Watterson, de 2013.

“É o segredo que mais custei a guardar em toda a minha vida porque eu sabia que tinha algo muito importante e raro, como se tivesse visto o Abominável Homem das Neves”, escreveu Pastis em seu blog, após revelar que recebeu um e-mail de Watterson se oferecendo para desenhar três tiras de Pearls Before Swine sem ninguém saber. “É como se Jimmy Hendrix tivesse me dito que tinha um novo solo de guitarra. E, sim, eu sei que Hendrix está morto”.

Quanto ao cartaz do documentário, Watterson afirmou que lhe pareceu um desafio e por isso aceitou: criou uma imagem muito engraçada, que mostra um cartunista que salta rápido e sem roupas, espantado ao ler uma manchete: “Adeus, jornais!”. A obra de Watterson sempre foi ligada à imprensa e ele sempre quis que os jornais fossem seu espaço: sua genialidade reside nisso, em ser capaz de contar histórias infinitas em um formato muito reduzido, em criar personagens complexos em apenas quatro quadrinhos.

A única imagem de Bill Watterson.

“As tiras cômicas são criadas sob a pressão de um fechamento diário inflexível, e temos muito pouco espaço para escrever e desenhar”, disse Watterson em um de seus raros textos, publicado em Calvin e Haroldo – O Livro do Décimo Aniversário (Conrad), uma obra estupenda na qual o autor comenta muitos de seus quadrinhos e oferece uma mina de informações sobre seu trabalho. A descrição de seu trabalho é, ao mesmo tempo, uma homenagem à arte de fazer jornais e também aos quadrinhos e seus personagens. Ele explica que o nome Calvin é uma referência ao teólogo francês João Calvino e confessa que as coisas que diz e faz o menino de imaginação transbordante e escasso senso de autoridade é um reflexo do autor francês: “Seus pensamentos são os mesmos que os meus, me vejo nele como adulto e não como criança”. Haroldo, o tigre de pelúcia que ganha vida quando está com o menino, é uma homenagem ao filósofo inglês Thomas Hobbes [nome do personagem no original em inglês] – “O homem é o lobo do homem” – e é inspirado nos gatos que Watterson teve. Ele também descreve todos os personagens secundários: os pais, Susie (“provavelmente a única pessoa de quem Calvin tem medo”), a professora, o valentão Moe… Quadrinho a quadrinho, tira a tira, pressionado pelos fechamentos e pelas condicionantes de tempo e espaço da imprensa, Watterson conseguiu construir um universo que nunca acaba, seguramente porque decidiu fechá-lo a tempo. – http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/18/cultura/1405720740_896942.html

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