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Você quer ver como brasileiro rico assiste ao jogo?

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em junho 18, 2014

Depois de ter assistido ao Brasil-Croácia na Favela do Moinhos, o Expresso seguiu o Brasil-México em cenário mais farto (e mais chatinho). Aconteceu na Marina da Bahia, onde há seguranças privados grandes como árvores e nem um palavrão se ouve (ou quase).   FOTO DR

O caminho para lá faz-se de táxi, por atalhos e encurtamentos de vias para fugir ao trânsito em hora de ponta num dia de jogo do Brasil. Aqui, quando a canarinha joga, é feriado, o patrão está fora e é dia santo no ‘boteco’.

– Você quer ver como os brasileiros ricos vêm o jogo? Deixa comigo. Mas prepara aí a carteira e a cabeça, que vai ser chato.

Estamos na Marina da Bahia. Há barcos à vela, a motor, iates e lanchas rápidas, automóveis de marca alemã. E seguranças privados grandes como árvores, fardados como se estivessem num filme do Fernando Meirelles. Protege-se o ouro nestas paragens.

A Marina é um conjunto de pequenos restaurantes espaçados entre eles para que a clientela não se misture ou sinta incomodada, num gueto de luxo com vista para o mar que até está bem calminho. Um enquadramento perfeito para as duas horas mais aborrecidas que passaria desde que estou por aqui.

Tenho à minha espera dois portugueses, conhecidos de outras andanças, e é junto deles que me sento no Restaurante DAS. De frente para o futebol brasileiro que passa no plasma e de perfil para a alta sociedade que se passeia à minha esquerda. Eu tinha duas metas na cabeça: perceber como se vê o futebol com a classe alta brasileira, consumindo o indispensável apenas para não me tomarem por penetra. Ou voyeur. Espero ter atingido a primeira, porque falhei redondamente na segunda.

[Às tantas, dir-nos-ão:

-Já acabou a cervejinha, querem outras, senhores?
– Não, obrigado.

Uma pequena Brahma por cada 45 minutos parece um número justo para a malta portuguesa mas manifestamente curto (sovina) para os que lá estão. Em boa verdade, alguém que não sabemos quem, ainda nos pôs na mesa corrida uma terceira “cervejinha”, uma Brahma Extra, para dividir pelos três.]

Ao meu lado estão cinco mulheres e cinco homens. Mais tarde, junta-se-lhes um pai e um filho. Dessas 12 pessoas, três vestem camisolas da seleção, curiosamente as que mais discutem os méritos do guarda-redes Ochoa e os defeitos do onze de Scolari. Nas minhas costas estão alemães, espanhóis e outros brasileiros. Começa o jogo. Faz-se silêncio. E não é aquele silêncio que associámos à tensão, à expectativa, à unha roída. Não.

Este é um silêncio chato, apenas quebrado por algumas conversas sobre dinheiro e risos discretos. Nem um palavrão se ouve, porque a segunda sílaba que se segue ao “pu” é engolida pela boa educação e pela vergonha.

Elas vestem jeans brancas ou azuis claras, que lhes caem bem, e camisolas leves. Estão maquilhadas q.b., calçam sandálias, usam relógios de bracelete fina em mãos cuidadas que  seguram flutes de champanhe. Eles (há um par de gémeos) t-shirts justas da moda ou da canarinha, ténis brancos, ganga, óculos Armani, CK ou Prada. E também bebem champanhe. Seria de pensar que pelo menos eles estivessem absorvidos pelo futebol, porque trajam a rigor. Gostam de futebol, apenas não se manifestam. Jean-Jacques Rosseau explicá-lo-ia melhor do que eu no Contrato Social: o homem é condicionado pelo meio.

Mas é então que aparecem o pai e o filho que discordam um do outro como um pai e um filho devem discordar quando o pai acha que ainda é o Super-Homem para o filho e o filho já o vê apenas como um Clark Kent. O progenitor tem uma teoria interessante e decide partilhá-la:

– Os sítios não mudam. O que mudam são as pessoas. Ouviu? As pessoas é que mudam. Porque o dinheiro compra tudo.
– Ah, pai, deixa para lá esse papo, ‘tá?  Fala baixo.

Finalmente animação. O pai e o filho contagiam a mesa que se vai desatando e soltando uns “pôxa”, uns “nossa senhora” e uns “vai dar golo, vai dar golo” até à liberdade.

– F…! Não tem problema! Fica tranquilo que a Copa está comprada para o Brasil! Há dinheiro!
– Fala mais alto que acho que ainda ouviram você ali na televisão.
– E falo! E falo!
– Fala não, vá. Baixinho por favor.
– Di-nhei-ro! Di-nhei-ro!
– Ahhh, p’ra mim chega.

Uma reviravolta de dez segundos a justificar esta crónica que caminhava lentamente para um final sem golos. Como o Brasil-México.  – http://expresso.sapo.pt/voce-quer-ver-como-brasileiro-rico-assiste-ao-jogo=f876394

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