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O Barão Vermelho tinha a alma sombria

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em maio 13, 2014

A edição das memórias de combate do célebre piloto de caça e uma nova biografia mostram um predador aéreo distante da impressão cavalheiresca que formou a sua lenda

Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho, no ano 1916. / ap

A cintilante luta aérea das trincheiras lamacentas da Primeira Guerra Mundial, um avião se destacou com a cor mordaz e desafiadora de Marte e o nome de Manfred von Richthofen (1892-1918), o Barão Vermelho, o piloto de combate mais famoso de todos os tempos. A sua lenda o transformou, além de uma das figuras mais emblemáticas do conflito que comemora o centenário do seu início, em um paradigma de piloto de caça cavalheiro, tão temido quanto admirado e respeitado por seus inimigos. No entanto, e como só acontece com os mitos, há grandes rachaduras na personalidade real do famoso piloto, campeão dos céus na Grande Guerra, com 80 vitórias confirmadas. Agora, a publicação, na Espanha, de suas memórias de guerra “O avião vermelho de combate” (Macadán) e de uma extensa biografia de 600 páginas (Almuzara), do entusiasta J. Eduardo Caamaño, que mergulhou na monumental bibliografia sobre Von Richtofen – especialmente nos livros do grande especialista Peter Kilduff – para colocar à disposição do leitor um relato completo da sua vida e aventuras (inclusive as listas e as coordenadas das suas vítimas e desenhos dos aviões que pilotou e derrubou), que permite observar um indivíduo em toda sua dimensão, com facetas inquietantes, desagradáveis e hostis. Houve gente que percebeu isso na época: “É uma sorte que ele está morto”, expressou com um alívio sincero e inequívoco o capitão Middleton, do 40° esquadrão da Força Aérea Real. Outro piloto foi mais direto: “Richtofen era um merda.”

O retrato real de Manfred von Richtofen é o de um jovem (começou a carreira de piloto de caça aos 23 anos e encerrou da pior forma, com a morte, aos 25), militarista, arrogante, ambicioso e muito mais cruel do que a sua reputação sugere. Muita testosterona, arrogância, sede de glória, coragem e técnica e muito pouco de humanidade ou compaixão. Para o Barão Vermelho, cuja imagem ensanguentada cortando os céus era a última coisa que muitos rivais viram, voar significava a extensão dos prazeres da caça terrestre de animais, pela qual era fanático desde criança. No ar, transformou-se com muita alegria em um falcão implacável, a joia escarlate no poleiro do Kaiser.

Nem em seu livro – escreveu apenas outro, um manual de combate, Reglement für Kampfflieger – nem nos relatórios ou nas cartas encontramos a sutileza, a reflexão, a comiseração, a poesia ou a literatura, dos grandes pilotos de guerra escritores como Salter, Richard Hillary – autor de O último inimigo – ou Saint Exupéry.

“Sou um caçador por natureza”, escreve Von Richtofen no O avião vermelho de combate. “Quando derrubo um inglês, minha paixão pela caça se acalma por pelo menos quinze minutos.” É difícil conciliar esse comentário frívolo à realidade dos aviadores, uivando em suas quedas desesperadas enquanto são consumidos como tochas em seus aviões incendiados. E o Barão acrescenta: “Caçadores precisam de troféus.” Assim justifica um de seus costumes – além de matar pessoas – que mais causa aversão: sua obsessão por recolher ou arrancar elementos dos aviões que derrubava, metralhadoras, pás de hélices e especialmente os números de identificação que arrancava como terríveis lembranças das suas vitórias. Com eles, decorou um quarto na sua casa. Alguém pode se perguntar como conseguia se sentir confortável sentado ali, entre recordações do destino fatal de tantos aviadores, e não perceber o espectro da morte que também o assombrava. Quando o derrubaram – já convertido em lenda -, em uma assustadora imitação do seu costume, as mãos ávidas dos soldados aliados arrancaram lembranças da sua máquina voadora e do seu corpo inerte, inclusive as suas botas. Desde a sua primeira morte, Von Richtofen encomendou em um joalheiro uma taça de prata, uma para cada inimigo abatido.

Em O avião vermelho de combate, o ás (kanonen, diziam os alemães) explica com bastante propaganda e um tom casual, digno de matérias mais leves que a guerra aérea, sua trajetória desde os primeiros passos aos penúltimos voos. “Tudo que era arriscado me cativava”, escreve. Ingressou ao exército em 1911, na cavalaria, e entrou na guerra de 14 muito feliz, considerando-se por isso um homem. Realizou várias ações “ousadas” na França como tenente de um destacamento de ulanos e não hesita em relatar como “colocaram na parede” (fuzilaram) supostos franco-atiradores e “penduraram em um poste de luz” monges que colaboraram com o inimigo. Em 1915, diante do estatismo que torna a cavalaria inútil, pediu para passar à aviação. Voar – a princípio, o faz como observador de reconhecimento na Rússia (“é uma lástima que não tenha nenhum russo na minha coleção, suas insígnias decorariam muito bem a parede do meu quarto”) e em seguida como artilheiro em um avião de dois lugares – parece sublime para ele e muito seguro. Sente-se “grande” metralhando tropas terrestres. Seu primeiro assassinato provoca grande excitação. Já no Ocidente, com o grande Boelcke, mestre e comandante, sua carreira decola. Diverte-se de forma selvagem abatendo os inimigos. Muitos deles – ver Under the guns of the Red Baron (Caxton 1998) – pilotos novatos, quase crianças, e que voavam com máquinas muito inferiores ao seu Albatros D III. As ações bélicas misturam-se com histórias de caça em que mata javalis ou com uma ocasião muito especial no terreno de um familiar do Kaiser, um bisão.

Escreve que pintou o seu avião de vermelho sem nenhuma razão especial – na realidade, um dos motivos foi para deixar claro quem era o autor dos disparos, para receber os créditos – e se mostra orgulhoso de que o “petit rouge” ou “le diable rouge”, como chamavam os franceses, causava medo. Insiste na história (falsa) de que os britânicos criaram uma unidade especial para caçá-lo. Defende a “decisão e a coragem” e reivindica aos alemães o domínio dos ares por causa de um “natural espírito ofensivo.” Uma joia de homem. “Não tinha piedade dos meus inimigos”, escreveu. E é verdade que pairava sobre os rivais, atirando decididamente para matar, sem deixar de disparar por um momento e contemplando sem paixão a caída mortal do avião ferido.

 O livro termina com 52 vitórias, no que foi batizado pelos britânicos como o “abril sangrento” de 1917, em que os Albatros e os Fokkers alemães protagonizaram um comovente tributo ao sangue. Depois de uma licença, Richtofen voltaria ao front, seria ferido em julho – um tiro na cabeça que o deixou temporariamente cego, e mesmo assim ele foi capaz de pousar – e entraria na fase final da sua carreira. Suas duas últimas vítimas foram dois britânicos Sopwith Camel. O piloto do último, David Lewis, sobreviveu milagrosamente para depois também se salvar de um atentado em Rodésia, em 1958.

Com tudo isso em vista, vale perguntar o que teria sido do Barão Vermelho se tivesse sobrevivido à guerra e precisasse enfrentar as decisões morais que foram tomadas pelos seus compatriotas com o nazismo e a chegada do III Reich. Pouco em seu caráter e comportamento faz supor que não haveria abraçado o revanchismo, o rearmamento e o retorno aos velhos tempos da guerra, como a maioria dos alemães fez depois de Hitler. Talvez seja muito supor que seria um Goering, popular ás de caça como ele, mas muito mais inteligente (e sem dúvida, malvado), e talvez os nazistas o distanciassem das suas origens aristocráticas, mas não esqueçamos do papel importante do seu primo Wolfram Von Richtofen (com oito mortes na Primeira Guerra Mundial) na aviação e na guerra de Hitler. Era um nazista fanático, o marechal mais jovem do exército alemão e chefe da Legião Condor na Guerra Civil. A morte do Barão Vermelho, naquele 21 de abril de 1918, abatido em Somme por uma única bala, que é a mais reivindicada da história da munição, evitou que fosse um Von Richtofen mais famoso o responsável por devastar Guernica.

O certo é que que não se imagina Manfred adotando um papel displicente com os nazistas, como Ernst Jünger, outra das grandes figuras militares do primeiro conflito e proprietário da cobiçada Pour le Mérite, a Blue Max, a maior condecoração alemã. Jünger irritou Goebbels, e o próprio Hitler teve que ordenar “não toque em Jünger” ao seus seguidores. Sem caprichos intelectuais e culturais de qualquer tipo, sensível à ansiedade e com desejo de honras, Manfred teria sido presa fácil para o Ministério da Propaganda. São estas suspeitas injustas com o grande aviador? Curiosamente, o cinema já se mostrou bastante ambíguo com o Barão Vermelho. Nenhuma dos muitos filmes sobre ele – do sagrado The Red Baron and Brown (1971), com John Philip Law, até o mais recente Der Rote Baron (2008), alemão – oferece um perfil tranquilizador. Ele é frequentemente mostrado como um piloto estupendo, nobre e tudo mais, mas com um lado obscuro e desagradável, uma faceta que traduz um certo niilismo áspero que envolve a sua figura incômoda e é uma ferramenta narrativa para traduzir a falta de empatia que o personagem provoca.

Um único indício nos faz pensar que Manfred Von Richtofen, se não morresse, poderia se tornar um personagem mais interessante do que realmente foi. Depois de ser ferido na cabeça, começou a se desapagar dessa imagem frívola e estúpida para entrar em um mundo mais tenebroso. Certamente, ver tantas mortes ao seu redor, e mesmo a sua, tão próxima, começaram a transformá-lo. Escreveu, então, um breve texto, Gendanken in unterstand, Reflexões no meu refúgio, não publicado até 1933 – como parte do seu livro -, no qual aponta que pensa em escrever uma continuação do O avião vermelho de combate, cujo tom já é mais insolente, em que explica que a guerra não é tão divertida, nem heroica, mas um assunto “muito sério e triste.” Confessa que sente angústia cada vez que volta de um combate e a vida parece sombria. Nesse crepúsculo, mais digno e humano, é onde brilha de verdade a luz do Barão Vermelho.  http://brasil.elpais.com/brasil/2014/05/10/cultura/1399738559_462662.html

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