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“Golpe de 64 foi crise político-militar sucedida por quarteladas”

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em abril 2, 2014

Há 50 anos, uma crise interrompia o regime democrático no Brasil e dava início a uma nova e difícil fase da história do país. Na visão do deputado federal Alfredo Sirkis, o movimento de 1964 não foi um propriamente golpe, mas uma crise que, seguida por uma série de “quarteladas”, levaram o regime a uma ditadura de fato, chegando ao ápice em 1969. Nesta semana, publicamos o depoimento de membros da REDE que viveram aqueles dias e tiveram suas vidas profundamente alteradas pelo golpe de 64.

Alfredo Sirkis, à esq., durante greve no Colégio de Aplicação, em 1967

A trajetória de Alfredo Sirkis já é bem conhecida nas suas memórias “Os Carbonários”, publicado logo após seu retorno. Abaixo, os principais trechos da entrevista com o deputado federal.

* * *

Golpe

Eu tinha 13 anos quando aconteceu o golpe. Estava no colégio Andrews e tomei conhecimento que havia algo diferente quando, voltando do colégio, vi tropas da Polícia Militar em volta do Palácio Guanabara [sede do então estado da Guanabara] onde o Carlos Lacerda estava proclamando estado de rebelião contra o governo federal. Eu era de uma família contrária ao governo João Goulart e que apoiou o golpe no primeiro momento, assim como a maioria esmagadora da classe média do Rio de Janeiro e do Brasil.

Quarteladas

A bem da verdade histórica, não houve um golpe de 1964. O que houve foi uma violenta crise político-militar nos dias 30, 31 de março e 1º de abril de 1964, que foi seguida por uma sucessão progressiva de quarteladas, mediante as quais o regime foi se endurecendo cada vez mais, até que em 1969 ele chegou à plenitude como ditadura. Então, não houve um golpe de Estado, houve uma crise político-militar, provocada muito pelos erros do governo João Goulart. Muitas das razões que levavam o descontentamento com o governo eram legítimas. Não considero, obviamente, a queda do governo o tenha sido, mas houve uma responsabilidade do Jango na queda.

De fato, havia uma conspiração por parte de um esquema central coordenado pelo general Castello Branco e que estava ligado aos americanos. Mas quem deu o golpe não foi esse esquema, foram dois generais obscuros do interior de Minas, o Olímpio Mourão Filho e o Carlos Guedes, que aproveitaram um discurso irresponsável do Jango no Clube de Suboficiais e Sargentos no Automóvel Clube e sublevaram suas unidades. O dispositivo militar do Jango era poderoso, teria podido derrotar, pelo menos inicialmente, essa quartelada, mas o Jango não quis combater, fugiu para o Rio Grande do Sul e depois foi para o exílio.

Em algum momento, o que hoje chamamos de golpe esteve mais para uma crise político-militar operada sobretudo pelo telefone. Mas ele foi se tornando um golpe de Estado por sucessivas quarteladas, que inclusive foram rompendo com segmentos da sociedade brasileira que ficaram satisfeitos com a queda do João Goulart. Tanto que, quatro anos depois, a mesma classe média que havia dado sustentação à oposição contra o Jango ela já estava em grande parte envolvida na resistência à ditadura militar.

Luta Armada

A luta armada foi uma decorrência da ditadura. O movimento militar de 1964 era, supostamente, para defender a democracia contra o comunismo. Depois eles imediatamente acabaram com as eleições previstas para 1965, que teriam sido disputadas pelo Juscelino Kubitschek de um lado e Carlos Lacerda do outro. Os militares resolveram se apossar do poder. Isso empurrou a classe média para a oposição. Ao ser empurrada para a oposição, expressa sobretudo no movimento estudantil, a classe média passou a ser brutalmente reprimida, da mesma forma que o movimento operário já o tinha sido desde 64. Isso foi gerando um conflito cada vez maior e, no segundo semestre de 68, as nossas manifestações estudantis deixaram de ser reprimida a cassetete e bomba de gás e começaram a ser atacadas a tiros e uma parte dos jovens que participava do movimento estudantil, eu era membro do movimento secundarista da época, radicalizou e acabou às organizações que desenvolveram a guerrilha urbana e a guerrilha rural.

A avaliação que eu faço da guerrilha na época, digamos, moralmente foi justificada, porque é justificável você se rebelar contra um estado de opressão como aquele, mas que em termos de eficácia política foi burra, contribuiu para radicalizar ainda mais o regime e, por outro lado, esse processo de radicalização acabou nos imbuindo de uma ideologia que, se tivéssemos chegado ao poder, seria não para restabelecer a democracia, mas para implantar uma ditadura revolucionária, do tipo cubano.

A eficácia política da guerrilha foi nula, a sua ideologia era equivocada, no entanto o gesto de se rebelar contra a ditadura era um gesto totalmente justificável, historicamente falando. Sobre minha relação de ser guerrilheiro, não me orgulho nem me envergonho. É um dado da minha biografia, não acho que fui herói, por outro lado, me dá autoestima saber que resisti naquele momento de opressão. Mas acho que cometemos erros e as visões que nós tínhamos naquela época não nos ajudam a enfrentar os problemas atuais. Hoje em dia, absolutamente não renego o que fiz, mas por outro lado não glorifico.

Quero ser o Sirkis de 2014. Muitas vezes em debates, eu vejo que as pessoas querem o Sirkis de 1970, dos Carbonários, eu já sou mais aquele, já não era quando escrevi “Os Carbonários”, com 29 anos, quanto mais com 63 anos.

Comissão da Verdade

A Comissão da Verdade que eu votei e defendi era uma comissão no molde daquelas da África do Sul, que faria realmente uma reconstituição da verdade, dos fatos que haviam ocorrido e, ao mesmo tempo, ensejaria uma superação daquela polarização com vistas ao futuro. A Comissão da Verdade tem parcialmente esse ensejo, e nesse sentido é importante se reconstituir a verdade em relação a todos os episódios que estão sendo esclarecidos –Casa da Morte, o que aconteceu com o corpo do Rubens Paiva, tudo isso é muito positivo.

No entanto não sou favorável a se rever a Lei de Anistia e de se levar os envolvidos em violações de direitos humanos naquela época aos tribunais hoje. Se tivesse que ter sido feito, teria que ter sido nos anos 80. Hoje já se passaram quase cinquenta anos dos fatos e seria politicamente contraproducente fazê-lo. Há muito tempo o discurso contrário ao regime militar é predominante na sociedade brasileira, existe uma condenação da sociedade das torturas e violações aos direitos humanos, levá-los a julgamento não produziria efeitos jurídicos eficazes e lhes daria uma tribuna e, pela natural curiosidade da mídia, se abriria espaço para eles.

Brasil Hoje

As polarizações de cinquenta anos atrás não nos ajudam a resolver os problemas do Brasil de hoje. Essa é uma grande bobagem, querer pular de volta nas antigas trincheiras não faz sentido. É uma ilusão imagina que vão pensar como nós pensamos dentro da instituição militar. Eles podem no máximo aceitar que houve grandes erros que foram cometidos naquela época de parte a parte e não é algo a ser revivido. Agora querer que o estamento militar assuma a narrativa da esquerda em relação a 64 e fatos posteriores, acho que é uma ilusão perigosa e contraproducente. Rede Sustentabilidade – Alfredo Sirkis – http://redesustentabilidade.org.br/alfredo-sirkis-golpe-de-64-foi-crise-politico-militar-sucedida-por-quarteladas/

Uma resposta to ““Golpe de 64 foi crise político-militar sucedida por quarteladas””

  1. Arwen said

    Republicou isso em Arwen Releiturase comentado:
    Nós que não vivemos a ditadura olhamos com horror os abusos cometidos contra os nossos semelhantes, a violência da repressão, a tortura, o fato de psicopatas terem conseguido liberdade para dar vasão a seus instintos sobre jornalistas e estudantes. Mas nos esquecemos que toda história tem dois lados, e por isso elegemos heróis, ídolos.
    Precisamos nos lembrar que as pessoas que lutaram contra a ditatura militar são tão humanas e falíveis quanto quaisquer outras. Não estão isentas de serem corruptas ou mesmo tão cruéis quanto seus velhos torturadores.
    Elegemos inadvertidamente estes velhos “heróis” pensando nas glorias do passado, sem olhar o presente, os esquemas de mensalão, o dinheiro na cueca, as obras sem licitação, a censura.
    Vivemos uma ditadura mascarada de liberdade e que pode ser tão cruel quanto o regime militar iniciado em 1964.

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