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A maioria esmagadora da Crimeia vota em favor da união à Rússia

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em março 16, 2014

Mais de 95% dos eleitores optam, com 50% dos votos apurados, pela anexação. O Parlamento da república autônoma ucraniana solicitará nesta segunda-feira a incorporação oficial

Multidão comemora com bandeiras russas em Simferopol. / Vadim Ghirda (AP)

Entre os eleitores do referendo separatista convocado pela república autônoma da Crimeia (Ucrânia), 95,5% pronunciaram-se, neste domingo, com 50% dos votos apurados, a favor da incorporação deste território pela Rússia, e 3,5% por continuar sendo parte da Ucrânia, mas com mais autonomia que atualmente, segundo informou a Comissão Eleitoral do território situado ao norte do Mar Negro. A Crimeia é o epicentro de uma das maiores crises internacionais desde a desintegração da União Soviética, em 1991.

Segundo a televisão oficial da Crimeia, que transmite juntamente com o canal de televisão russo Rossiya 24, a participação no referendo superou a marca dos 89,5% em Sebastopol, cidade sede da frota do Mar Negro da Rússia; na capital Simferopol, foi de 88,5% e chegou a 82,7% no restante da península. O canal reiterou que 40% dos tártaros, comunidade mais contrária ao referendo, haviam votado. Todos esses dados são impossíveis de serem verificados porque os supervisores se limitam a várias dezenas de pessoas que não veem nada de errado com a consulta. Além disso, os cidadãos não incluídos na lista poderiam votar se preenchessem um formulário no próprio colégio eleitoral.

Duas perguntas foram submetidas aos votos de mais de 1,5 milhão de pessoas. A primeira era sobre a incorporação à Rússia, como província, e a segunda sobre a permanência na Ucrânia, baseando-se na Constituição local de 1992. Segundo o Censo da Crimeia, 58,3% dos habitantes da península são russos, 24,3% são ucranianos e 12,5% são tártaros.

No último dia 6 de março, o Soviet Supremo da Crimeia (Parlamento local) aprovou uma declaração de independência, e seus dirigentes sublinharam que o triunfo da primeira opção significa que a Crimeia se declara independente. Segundo uma lei de 2001, a Rússia pode ampliar suas dimensões incorporando Estados (ou territórios pertencentes a esses Estados), mediante um acordo internacional e bilateral.

Como a Crimeia, segundo sua própria lógica, converteu-se em independente, isso significa que Moscou, também dentro da sua própria lógica, pode firmar um acordo com Simferopol à margem da Ucrânia. De acordo com o primeiro-ministro crimeio Serguei Axionov, uma delegação do Parlamento local vai solicitar oficialmente hoje em Moscou a incorporação da península à Federação Russa.

O processo de “fusão” implica vários passos, mas pode ser acelerado em função das necessidades do Kremlin e dos separatistas. As formalidades para completar o procedimento deveriam incluir o reconhecimento da independência da Crimeia por parte da Rússia. A isto se seguiria a preparação e assinatura de um tratado bilateral. Depois, esse tratado deveria ser submetido ao Tribunal Constitucional, que conferiria se o documento está de acordo com a Lei Fundamental da Federação Russa. Em caso positivo, o tratado russo-crimeio seria submetido à votação pela Câmara do Parlamento (Assembleia Legislativa, Senado e Conselho da Federação) e à assinatura do presidente. Supondo que todos esses requisitos sejam realizados o mais rápido possível, o processo levaria alguns dias, mas, dado o caráter extraordinário do que está acontecendo, deve demorar menos.

Esta semana, várias entidades de Moscou estão programadas para canalizar os processos de incorporação à Rússia, entre elas prefeituras e instituições culturais. Os funcionários dependentes das instituições oficiais da Crimeia já cobraram o salário antecipado de março e em grivnas (moeda ucraniana), mas foram advertidos que o próximo pagamento, em abril, será realizado em rublos (moeda russa), segundo fontes informadas.

Independente de como e quando foi elaborado o plano do Kremlin para absorver a Crimeia, os roteiros dessa ação foram modificados. Uma variante, que hoje parece estar morta, era uma alteração legislativa na Rússia (proposta formalmente pelo partido social-democrata Rússia Justa), que permitia incorporar novos territórios sem a permissão do país aos quais eles pertençam. Tamanha legitimação de anexações territoriais causou um grande mal-estar aos vizinhos e aos aliados da Rússia, que a qualquer momento poderiam estar expostos aos caprichos do Kremlin e dos aliados do presidente Vladimir Putin que, com ele à frente, içaram a bandeira do neoimperialismo russo, versão pós-soviético.

Apesar de os observadores convidados à Crimeia não terem visto soldados russos em frente aos colégios eleitorais, é certo que eles mantiveram suas posições, ontem. Em frente à unidade A3835 do Ministério de Defesa da Ucrânia, situada na entrada de Bakhchysarai, obstáculos metálicos, uma placa de pare e quatro uniformizados com trajes de camuflagem, capacetes, máscaras, coletes antibalas e fuzis automáticos Kalashnikov com capacidade para 120 balas impediram esta reportagem de entrar na unidade, onde, no último 6 de março, era possível frequentar e conversar com os oficiais ucranianos.Os soldados, que falavam russo sem o sotaque da Crimeia, mandaram que nós nos afastássemos sem sequer chegarmos ao portão. Um dos oficiais da unidade, contactado pelo telefone, negou-se a responder a pergunta sobre se era possível sair e votar no referendo.

O Medzhlis dos tártaros da Crimeia – organismo de autogoverno sem ligação com as estruturas oficiais – recomendou que sua comunidade boicotasse o referendo e não participasse de nenhum dos trâmites da sua preparação. Em Bakhchysarai, que é a capital histórica dos tártaros, a situação era “tensa”, segundo Shevket Hamzin. No distrito número seis, três jovens tártaros afirmaram que boicotaram o referendo e explicaram que o colégio eleitoral 12.009 foi instalado em garagens porque o jardim de infância que costuma se transformar em colégio eleitoral negou-se a acolher as urnas. Três oficiais da polícia ucraniana apareceram no colégio citado, todos vestidos de uniforme, com o tridente (símbolo oficial da Ucrânia) no gorro. Os três disseram que haviam votado pela incorporação à Rússia porque este país é mais próximo.

“O importante não é o uniforme, mas o que levemos dentro de nós”, disseram. Em Sebastopol, um capitão da marinha ucraniana informou que não permitiu que os soldados de unidades sitiadas saíssem para votar.  – http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/16/internacional/1394974142_352878.html

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