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O trote, um ritual bárbaro ainda vigente nas universidades do Brasil

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em fevereiro 2, 2014

A prática, ilegal na maioria das faculdades, continua sendo tolerada pelas autoridades acadêmicas. Algumas dessas ‘brincadeiras’ acabam em desgraça ou deixam sequelas traumáticas em quem as sofre

Caloura fantasiada como a escrava Chica da Silva na UFGM. / reprodução

No dia 28 de março do ano passado, Alexandre Coutinho, que estreara havia pouco como aluno de exatas da USP, voltava para seu quarto no alojamento de estudantes do campus de São Carlos, no interior de São Paulo. No caminho foi abordado por um grupo de veteranos que, empolgados com uma festa, quiseram ‘brincar’ com o calouro. Eram oito. Encurralaram Alexandre em um canto, tiraram as calças dele e se esfregaram pelados contra seu corpo, o tocaram e o humilharam, conforme o relato do rapaz de 23 anos.

Naquele dia, ele começou uma peregrinação de escritório em escritório da faculdade. “Quando ninguém me ouviu fui na delegacia e me falaram que o crime mais perto daquilo que ocorreu era estupro. Na mesma noite vazaram para a imprensa o Boletim de Ocorrência”, explica o jovem. Alexandre decidiu abandonar as aulas um mês depois. “Estudar na USP era meu sonho, meus pais são apenas alfabetizados”, diz. “A partir da denúncia vieram as represálias. Eles amenizaram a história, falaram que estavam bêbados, que só foi uma brincadeira. Mas essa foi a versão que deram para a polícia, na faculdade era outra coisa. Comecei a sofrer depressão e iniciei tratamento psiquiátrico”.

Na noite de 28 de agosto, exatos cinco meses depois, Alexandre pegou um revólver que tinha comprado por mil reais “para se proteger em casa” e apareceu no alojamento à procura daqueles oito veteranos. Deu uma coronhada em um dos estudantes, que tentou tirar sua arma e disparou várias vezes em diferentes direções. Fugiu por 45 quilômetros em um bicicleta e ficou foragido duas semanas até que se entregou para a polícia. Aquele episódio mudou sua vida, virou um ativista nas redes contra os trotes, está se preparando de novo para o vestibular e responde em liberdade a um processo que pode custar a ele três anos de cadeia. “O que eu fiz não foi correto, acabei fazendo besteira depois de tanta frustração, mas eu tentei fazer tudo dentro da lei e a lei não me apoiou”, conta ele.

O caso de Alexandre foi o último a colocar os trotes nas manchetes dos jornais do país. Meses antes, no mesmo campus, 50 simpatizantes da Frente Feminista de São Carlos fizeram uma manifestação contra o Miss Bixete, um concurso no qual os veteranos obrigam as estudantes a desfilar e, entre outras coisas, tirar a camisa, chupar um picolé o dançar até o chão. Ritual que é depois publicado na internet. Os veteranos responderam ao ato hostilizando as meninas enquanto simulavam relações sexuais com bonecas infláveis ou mostravam seus genitais. “Jogaram cerveja, copos e duas bombas em nossa direção. Houve empurrões, tentativa de agressão, assédio às meninas, e um grupo que no final da manifestação perseguiu algumas de nós com pedaços de pau”, conta Monique Amaral, já formada pela UFSCar. Com isso, novas manchetes. “Os rapazes foram reconhecidos e a punição foi o pagamento de algumas cestas básicas. Muitas de nós, no entanto, seguiram todo o ano letivo sendo assediadas e hostilizadas nos corredores da universidade e nas redes sociais”, lembra Amaral.

Após o protesto, muitas de nós, no entanto, seguiram todo o ano letivo sendo assediadas e hostilizadas nos corredores da universidade e nas redes sociais.

A poucos dias do início do novo curso, as calouradas, ilegais no papel para a maioria das universidades, já começaram. Os trotes, comuns em muitos países do mundo, são vistos como um ritual de integração, mas no Brasil atingiram níveis de violência não tão comuns. Mesmo assim, uma ampla lista desses abusos continua sem resolução conhecida.

No ano passado, uma aluna da Universidade do Sudoeste da Bahia foi obrigada a chupar os testículos de um boi e acabou no hospital com a boca sangrando. Também no ano passado, na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, um aluno foi amarrado a um poste fantasiado de Hitler, enquanto uma outra menina foi pintada de preto simulando a mítica escrava Chica da Silva. Em 2008, onze calouros foram queimados com uma substância ácida durante um trote na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, em Minas Gerais. Procuradas, as universidades, que tinham condenado publicamente os atos e anunciado sanções, ou não responderam ou não souberam informar qual foi a punição dos responsáveis. Nenhuma conhecida.

No ano passado, uma aluna da Universidade do Sudoeste da Bahia foi obrigada a chupar os testículos de um boi e acabou no hospital com a boca sangrando.

A impunidade acabou virando regra.

Já era assim em 1999, quando o estudante de medicina Edison Tsung Chi Hsueh apareceu afogado em uma piscina depois de uma noite intensa de trotes e o STF resolveu o caso assim: “Ainda que fossem veementes todos os depoimentos (e não o são) em afirmar que houve excessos, violência, agressões e abusos no ‘trote’, não se mostram suficientes para sustentar a acusação de homicídio qualificado imputada aos réus, por não existir o menor indício de que o óbito da vítima tenha resultado dessas práticas”. Caso arquivado.

“Eu sofri muito pelos trotes. A minha faculdade estava em uma cidade pequena, Guaratinguetá, onde o sistema de alojamento em repúblicas facilitava bastante o trote”, lembra o já engenheiro Henrique Mendonça, de 30 anos. “No primeiro ano você era tratado pior que um escravo. O clima acaba sendo muito militar. Um dos trotes que eles faziam era Miss B, ali os veteranos das principais repúblicas organizavam um desfile onde os bixos (calouros) desfilam pelados para todo o mundo ver e são julgados por uma equipe de travestis que trazem da cidade. Ao descobrir o que era, eu escapei, mas por ter fugido sofri trotes muito piores. Perdi meu quarto e fiquei dormindo na sala por mais de um mês com todas as minhas coisas, além de ganhar uma lavagem por dia, onde te pegam pelas pernas e botam sua cabeça no vaso sanitário enquanto dão a descarga”. As ‘aventuras’ de Mendonça daquela época também incluem uma noite internado no hospital por um coma alcoólico, após ser obrigado a beber durante horas.

Essa agressividade vai evoluindo a cada turma porque quem sofre essa agressão acaba criando um impulso de aplicar essa mesma prática no próximo integrante do grupo.

Apesar de ter sido em 2003, Mendonça conta com detalhe cada uma dessas brincadeiras. “Lembro de cada um dos meus trotes. Hoje em dia não tenho contato nenhum com as pessoas da minha faculdade, muito menos com os veteranos da minha república. Com certeza, foi um trauma”, disse.

Para as mulheres, mesmo a agressividade sendo menor que com os homens, a conotação é sempre sexual. Monique Amaral, que participou do protesto contra o Miss Bixete em São Carlos, resume assim as experiências que viveu com seus veteranos: “Nós éramos alvos a serem ora caçados e ridicularizados, ora caçados e, se possível, consumidos. Andar na rua livremente era algo vetado pela agressão verbal, que se esforçava para destruir ainda mais a autoestima, e estar nas festas era estarmos disponíveis. Em tom de brincadeira e ritmo de festa, naquele momento eles estavam tentando nos dizer como deveríamos nos comportar e quais espaços poderiam ser cedidos a nós em quais condições”.

Uma das professoras do campus de São Carlos explica a reação das suas alunas ao protesto de Amaral e suas amigas. “Não entenderam a causa. Criticavam as meninas e diziam que essas feministas que protestavam contra o Miss Bixete eram as mesmas que mostravam nos peitos na Marcha das Vadias. É difícil porque a normalização dos trotes acaba vindo dos próprios alunos”, relata Rosângela Ferreira.

Para José Roberto Leite, especialista em medicina comportamental, o professor também tem uma grande responsabilidade em uma prática que ele considera doentia. “Integrar o novo indivíduo nesse grupo já constituído é a ideologia por trás do trote. Mas o que acontece é que o líder, que já tem um caráter agressivo, propõe algum absurdo e tudo mundo aceita. E essa agressividade vai evoluindo a cada turma porque quem sofre essa agressão acaba criando um impulso de aplicar essa mesma prática no próximo integrante do grupo”, explica o professor. Leite destaca o clima de impunidade que se vive nas faculdades a respeito dos trotes. “Temos um exagero sem punição nenhuma por parte das instituições. Os próprios professores acham que isso faz parte do ritual de entrada e não avaliam que essas atitudes correspondem, muitas vezes, a uma mente doentia.  – http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/31/sociedad/1391206610_121778.html

“Cheguei em casa me sentindo um lixo”

Uma ex-aluna da Universidade Federal de São Carlos relata sua experiência como caloura durante seu primeiro ano de faculdade

Quando eu entrei na faculdade já achava boa parte do que rola nos trotes e festas universitárias algo muito problemático. Eu estava ansiosa para começar a participar dos espaços da universidade e conhecer pessoas novas, que se interessassem por coisas parecidas comigo. Para ter um primeiro contato com as pessoas que estudariam comigo e com meus veteranos, compareci no horário e local marcado para o trote. Meu curso é predominantemente feminino e nosso trote, comparado ao da maioria dos outros cursos, foi leve. Mesmo assim, enquanto andávamos até o farol onde faríamos o pedágio para arrecadar dinheiro para a cervejada organizada pelas veteranas, algumas delas pediam para que enviássemos sinal de beijinhos para os meninos que passavam por nós ao longo do caminho. Diziam “Manda beijinho pro veterano, bixete”. Para mim ali já despontava a demonstração de uma noção de espécie de servidão das bixetes aos veteranos.

Aquilo tudo me irritava muito, mas eu fazia algum esforço para fingir ignorar algumas coisas e ser simpática. Ao longo do pedágio, eu e outras calouras ouvimos diversas coisas desagradáveis de alguns motoristas, geralmente o assédio verbal era ou relacionado a nossa aparência, a nossa sexualidade ou ambos. “Que gostosinha”, “Você está de parabéns” eram algumas das coisas ditas pelos motoristas e aprovadas pelas nossas veteranas com frases do tipo “Oh, a bixete tá fazendo sucesso!”. Eu estava me sentindo desconfortável e tinha entendimento de que ser assediada estava longe de ser “fazer sucesso”.

Ao fim do pedágio, enquanto caminhava sozinha com o rosto e os braços pintados de tinta até o local onde estava morando para me limpar, um carro cheio de universitários homens para o carro; eles começam a gritar olhando em minha direção “Morre demônio!”, “Passa reto!” e riam alto, em tom de escárnio. Eu queria xingá-los, responder ao que estavam fazendo, mas tive medo de piorar a situação. Eu já não estava me sentindo bem depois do trote, e aquilo terminou de me destruir. Cheguei em casa me sentindo um lixo. Enquanto tomava banho e tirava a tinta de mim, tentava me sentir bem e pensar sobre tudo o que tinha acontecido. O problema não era a tinta, mas o que ela significava naquele momento. Afinal de contas, estar marcada como “bixete” com a tinta significava passe livre para ser humilhada e assediada?

Semanas depois, em uma festa de integração para os calouros realizada pelo meu curso e mais um predominantemente feminino em uma república de estudantes homens de outro curso, ao chegar e ver como os meninos presentes se comportavam com relação a todas as calouras, ficava claro que o empréstimo daquele espaço para uma festa com cursos praticamente compostos só por mulheres não era por acaso.

A cada movimentação que fazíamos na casa éramos abordadas por algum menino. Pouco mais de uma hora depois, reconheci no meio da festa um dos meninos que estava no carro que havia me coagido na semana do pedágio. Aparentemente ele não me reconheceu, talvez por agora eu estar sem tinta no rosto ou talvez por ele sequer ter olhado para mim enquanto me ofendia.

Após o batizado dos calouros, momento em que fomos levados um por um para cima de uma mesa para sermos batizados por um apelido escolhido pelos veteranos ali presentes –  no caso dos poucos meninos calouros, apelidos que questionavam sua masculinidade, e no nosso caso, quase sempre relacionados a nossa aparência – fui à procura de um banheiro para secar os cabelos molhados pelo balde de água jogado sobre nós no momento do batizado. No caminho, sinto uma mão segurando meu braço e olho para trás, era o mesmo menino de semanas atrás me dizendo agora “Vem aqui, gatinha!”. Eu me soltei e andei enfurecida até o banheiro. Na porta do banheiro, fui prensada na parede por outro menino que tentava me beijar. Xinguei ele e o empurrei com força. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/31/sociedad/1391208249_277972.html

Despontava a demonstração de uma noção de espécie de servidão das bixetes aos veteranos.

A cerveja do open bar tinha acabado por alguns momentos, mas o open bar principal éramos nós.

Eu estava me sentindo desconfortável e tinha entendimento de que ser assediada estava longe de ser “fazer sucesso”. Monique Amaral é ex-aluna da Universidade Federal de São Carlos.

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