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Hildebrand Gurlitt, “o comerciante do Führer”

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em dezembro 29, 2013

Uma pesquisa descobre os profundos laços do tesouro artístico encontrado em Munique com as altas esferas nazistas

Imagem de Hildebrand Gurlitt nos arquivos municipais de Düsseldorf.

Quando nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial recebeu a visita de tropas norte-americanas, Aschbach era um pequeno povoado da região da Alta Francônia que abrigava no topo o castelo dos Pölnitz, uma família de aristocratas. Seus quartos foram revistados pelos soldados, que prenderam o chefe local do partido nazista, o barão Gerhard von Pölnitz. Eles também encontraram um homem chamado Karl Haberstock, que estava em uma lista de procurados do Escritório de Serviços Estratégicos, precursor da Agência Central de Inteligência [CIA]. Haberstock, comerciante de arte, havia vivido durante meses no castelo.

Ao inspecionar o local, os membros da brigada dos Monuments Men, cujo trabalho de buscar obras roubadas pelos nazistas será tema de um filme produzido, dirigido e estrelado por George Clooney (previsto para estrear no festival cinema de Berlim), encontraram um armazém gigante de pinturas e esculturas do museu próximo a Bamberg e de uma galeria de arte em Kassel; seus diretores haviam tentado protegê-las de bombas aliadas. Eles também encontraram peças pertencentes a vários membros de alta patente do exército alemão. E um dos monument man observou: “Além disso, no castelo, foram descobertos quartos contendo quadros, tapeçarias, esculturas, móveis e documentos valiosos que pertencem a dois conhecidos negociantes de arte alemães”. Eram as coleções de Karl Haberstock e de um tal Hildebrand Gurlitt, proprietário ilegal de um sensacional tesouro de 1.400 obras descoberto há pouco mais de um mês em Munique nas mãos de seu filho, Cornelius. Hildebrand tinha morado no castelo com sua família desde que sua casa de Dresden foi queimada.

O castelo dos Pölnitz, em Aschbach, onde Gurlitt se retirou com a família no fim da II Guerra Mundial.

Nos anos seguintes, os estudiosos de arte norte-americanos escreveram cartas, memorandos, inventários, relatórios e dossiês para esclarecer as origens destas obras. Em relação a Haberstock, sentenciaram: “É o colecionador de arte mais célebre da Europa. Era o comerciante particular de Hitler, e durante anos se apropriou de tesouros artísticos na França, Holanda, Bélgica e, inclusive, na Suíça e Itália, utilizando métodos ilegais, sem escrúpulos e até brutais”.

Diziam que Gurlitt era um “colecionador de Hamburgo ligado às altas esferas nazistas. Atuava em nome de outras autoridades nazistas e fez muitas viagens à França, de onde levou a seu país coleções de arte. Há razões para pensar que essas coleções particulares eram formadas por obras roubadas de outros países”. Para os Monuments Men, Gurlitt era um “comerciante de arte do Führer”.

Entre as obras encontradas recentemente em um apartamento no bairro Schwabing, em Munique, há 380 pinturas retiradas dos museus por serem consideradas em 1937 como “arte degenerada”. A descoberta incluía outras 590 obras que o regime nazista e seus seguidores possivelmente arrebataram de proprietários judeus. O dono do apartamento é filho de Gurlitt, Cornelius, atual herdeiro da coleção, que no fim da guerra tinha 12 anos e vivia em Aschbach.

O governo alemão está estudando a origem de cada obra de arte

Com a origem das pinturas individuais ainda a ser esclarecida, um grupo de trabalho nomeado pelo governo alemão está investigando a história de cada uma das obras. A tarefa será longa. Uma pesquisa jornalística realizada em locais como os arquivos do Ministério de Assuntos Exteriores francês e Museu Nacional de Breslau, na Polônia, revela o considerável alcance do tráfego de Gurlitt com a arte roubada e suas práticas cruéis.

Os monuments men interrogaram Hildebrand em Aschbach em junho de 1945. Estava “extremamente nervoso”; não parecia dizer a verdade. Foi, então, quando Gurlitt criou uma nova identidade: a de vítima dos nazistas, a de um homem que havia salvado valiosas obras de arte da destruição e que jamais havia feito mal a alguém. Nem tudo o que contou aos norte-americanos era mentira. Ele ressaltou que os nazistas o haviam considerado “mestiço” por causa de sua avó judia. Também disse que, depois de 1933, havia temido por sua vida, o que o levou a colaborar. Durante um interrogatório de três dias, Gurlitt declarou que, ao ser o que chamavam de “um quarto judeu”, havia o risco de que o recrutassem para fazer trabalhos forçados na Organização Todt, um grupo civil e militar de engenharia do Terceiro Reich. Gurlitt também afirmou: “Tive que escolher entre a guerra e o trabalho para os museus. Nunca comprei uma pintura que não me oferecessem voluntariamente”.

Então, em Aschbach os delitos de Haberstock pareceram os mais atrozes. Foi detido em maio de 1945 e em agosto foi levado a Altaussee, na Áustria, onde os grandes criminosos ligados à arte foram obrigados a testemunhar perto de uma salina cheia de obras. Gurlitt teve permissão para ficar em Aschbach. Mais tarde, Haberstock disse aos funcionários alemães que os norte-americanos haviam subestimado o papel de Gurlitt durante o período nazista.

Linz tinha de ser a sede do colossal Museu do Führer. Nunca chegou a ser construído, embora os nazistas tenham comprado obras para encher três pinacotecas. Hermann Voss esteve à frente do programa de compra a partir de 1943. Desde então, Gurlitt trabalhou para Hitler por intermédio de Voss. Também comprou arte para os museus alemães obrigados pelo regime a adotar suas diretrizes, assim como para cidadãos particulares.

Em 1930, o historiador de arte Gurlitt havia sido destituído de seu cargo como diretor do museu da cidade oriental de Zwickau por ter sido considerado apreciador da arte moderna. Foi para Hamburgo, onde assumiu a responsabilidade da pinacoteca local, até que voltaram a demiti-lo devido à sua preferencia pela vanguarda, assim como por seus antepassados judeus.

Ele permaneceu em Hamburgo, tornou-se comerciante de arte e abriu uma galeria. Naquela época, o tipo de arte moderna que tinha apoiado havia se tornado um negócio arriscado. Gurlitt comprava e vendia cada vez mais antiguidades. Ele tinha dom para os negócios e travou uma relação especial com grandes colecionadores. Em pouco tempo estava comprando arte de pessoas perseguidas, principalmente judeus, que vendiam suas obras porque se viam obrigados a fugir da Alemanha, haviam perdido seus empregos e precisavam de dinheiro para alimentar suas famílias, ou foram obrigados a pagar o chamado “imposto sobre o patrimônio dos judeus”. Gurlitt também comprou obras de arte apreendidas pela Gestapo. Tornou-se o comerciante oficial da “arte degenerada”, obras que deixaram de ser consideradas aceitáveis no Terceiro Reich.

Até 1942, ele ficou em Hamburgo. Nos primeiros anos da guerra, ele ampliou sua presença na Holanda, Bélgica e França. Quando as bombas destruíram sua galeria, levou sua mulher e os dois filhos para a casa de seus pais em Dresden. Ele fez suas primeiras compras em 1941, um ano após a invasão da França. O fato de que os quadros vieram do país ocupado aumentava o seu valor. Coleções importantes foram confiscadas, ou seus proprietários foram obrigados a vendê-las a preços incrivelmente baixos. Ele cercou-se de personagens obscuros no mundo da arte, incluindo representantes, intermediários e outros informantes. Ele era um homem muito procurado, já que dispunha de milhões de marcos do Reich para gastar.

Ficha do exército norte-americano de uma obra de Jules Pascin encontrada no castelo de Aschbach.

Naqueles anos, o barão Gerhard von Pölnitz, proprietário da mansão de Aschbach, estava em Paris como alto comandante da Força Aérea alemã. Em seu tempo livre trabalhava para Haberstock e Gurlitt, fechando acordos e atuando como representante. Há um relatório do historiador de arte Michel Martin sobre Gurlitt nos arquivos do Ministério de Assuntos Exteriores da França. Durante a ocupação, Martin trabalhou no departamento de pintura do Louvre, onde emitia licenças de exportação das obras. Gurlitt, escrevia Martin, tinha acesso a um “crédito em constante expansão” e adquiriu obras por um total “entre 400 e 500 milhões de francos”. De acordo com sua versão, também adquiriu em Paris obras para sua coleção particular. “Quando resistíamos em exportar sua arte, pegava obras sem autorização”. Enquanto isso, Hildebrand insistia que era “um simples funcionário” que estava seguindo ordens.

Terminada a guerra, os norte-americanos submeteram Gurlitt a prisão domiciliar em Aschbach. Para ocupar o tempo, dava palestras sobre Durer e Barlach e sobre o kitsch na arte religiosa à pequena congregação eclesiástica local. Escrevia cartas nas quais tentava justificar suas compras na França.

Comprava obras dos perseguidos, judeus que precisavam fugir ou de dinheiro rápido

Em uma carta enviada em 1947 a uma historiadora francesa, insistia que havia sido “um verdadeiro amigo da França e opositor do regime nazista”, uma pessoa que “de palavra e por escrito” havia “sempre defendido a arte francesa”. Não mencionou seu trabalho para o museu do Führer em Linz.

A prisão domiciliar de Gurlitt foi suspensa e em janeiro de 1948 ele se mudou para Düsseldorf, onde se tornou diretor do seu museu. Seus anos em Aschbach eram “passado”. Em 1950, as obras foram devolvidas a ele pelo arquivo de propriedades expropriadas conhecido como Ponto de Coleta Central de Wiesbaden. Ele foi absolvido de todas as acusações. Os norte-americanos haviam apreendido um total de 140 obras. Mas Gurlitt também havia escondido parte de sua coleção em um antigo moinho de água.

Ele voltou a ser um membro respeitado da sociedade e ganhou o apoio dos industriais de Düsseldorf para incluir as obras deles em suas exposições. Até começou a mostrar novamente sua coleção com o provável objetivo de saber se os verdadeiros donos reivindicariam as obras. Em 1956, ano da sua morte, Gurlitt enviou quadros de sua coleção para Nova York, entre os quais havia obras de Beckmann e Kandinsky. Ele escreveu um perfil autobiográfico para o catálogo, que nunca foi publicado. Nele, descreveu a si mesmo como um homem bravo e corajoso, um herói cuja atividade durante a guerra foi um “ato de malabarismo perigoso”.

Ele morreu em um acidente de carro em 1956. Seu obituário o elogiou como uma figura importante no mundo artístico do pós-guerra da Alemanha Ocidental. Sua viúva, Helene, mudou-se para Munique na década de 1960, onde adquiriu dois apartamentos caros em um novo prédio em Schwabing. Os mesmos que os agentes alfandegários recentemente encontraram um tesouro que voltou a colocar a Alemanha de cara com seu passado.

Com informação de: Ulrike Knöfel, Sven Röbel and Michael Sontheimer. Traducción de News Clips. © 2013 Der Spiegel.  – http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/28/cultura/1388264703_765897.html

Crônica de um espólio silencioso na Espanha

Uma legislação antiquada, falta de sensibilidade política e uma minguante verba pública para aquisições explicam por que grandes obras e importantes coleções estão fugindo do país europeu

‘A crucificação’ de El Greco, vendida em Londres.

Uma crucificação de grandes dimensões, de El Greco, que um dia pertenceu ao Museu Zuloaga, em Zumaia (País Basco), é arrematada em Londres por quase 13 milhões de reais… Um soberbo Rubens (Retrato de um Cavalheiro) encontra, também na capital britânica, comprador por 12,3 milhões… O acervo de 45 peças de arte contemporânea em homenagem a Chillida, propriedade do conglomerado Urvasco depositada no Belas Artes de Bilbao, é liquidado pela Christie’s para enxugar as dívidas contraídas junto ao governo provincial… Vende-se a excelente coleção de arte pré-colombiana Barbier-Mueller, depositada em Barcelona… Poderiam ser as manchetes de um boletim noticioso sobre a silenciosa fuga do patrimônio na Espanha. E, também, um convite para formular algumas perguntas urgentes: estamos perdendo nossos tesouros artísticos? Há abandono por parte de quem tem a obrigação de protegê-los?

Cada caso, cada coleção e cada obra narra sua própria história, mas contadas juntas elas constroem um enredo inquietante, com um inegável ingrediente em sua trama: os fortíssimos cortes orçamentários no Ministério da Cultura esgotam as possibilidades de reter as obras. Aconteceu em meados do ano, quando um dos netos de Zuloaga vendeu na sala Sotheby’s, em Londres, a Crucificação de El Greco, que durante anos foi exposta no museu dedicado ao pintor em Zumaia. Na Espanha há outras três telas do artista desse tamanho e temática. A Ancora – associação destinada a proteger o patrimônio artístico do País Basco – pôs a boca no trombone. “Tentamos frear a venda, fomos à Deputação [o governo da província basca de Biscaia, do qual depende o cuidado a esse patrimônio], mas não sabiam de nada. Depois nos informamos de que o Ministério da Cultura havia concedido a autorização de exportação. Uma perda lamentável”, afirma Alberto Fernández, da Ancora. Por que sua saída foi autorizada?

Juan Antonio García Castro, diretor do Museu de El Greco, em Toledo, calcula que, entre ateliê, seguidores, imitadores e obras assinadas, o catálogo do pintor cretense oscile entre 300 e 400 peças. Mas há trabalhos – como o que está sendo preparado por Carmen Garrido, ex-restauradora do Prado – que estimam em apenas 70 as peças sobre as quais há certeza absoluta. Se até agora os Grecos eram valiosos, no futuro serão ainda mais. Mas essa interpretação não recebeu guarida na Junta de Qualificação, Avaliação e Exportação de Bens do Patrimônio Histórico Espanhol, do Ministério de Cultura, encarregada de dar o aval à saída das obras.

O organismo autorizou a venda porque entendeu que “era uma obra do ateliê, e a imagem era uma das suas composições mais repetidas”, justifica um membro da junta. Claro que o colecionador que pagou 3.442.500 libras (13.355.870 reais) pela tela não pensava o mesmo. Tampouco García Castro: “Quem dera o Estado a tivesse comprado para o museu”.

‘Retrato de um caballero’ de Rubens.

A história se repetiu recentemente com o Retrato de um Cavalheiro, de Peter Paul Rubens (1577-1640). Um óleo pequeno, mas soberbo, influenciado por Velázquez, que fazia parte do acervo do Fórum Filatélico e foi colocado à venda para ajudar a ressarcir as vítimas lesadas numa fraude envolvendo investimentos com selos. Era impensável que o Estado não exercesse a opção de compra ou pelo menos não proibisse a retirada da tela do país. Mas não o fez, e permitiu que ela fosse leiloada na Sotheby’s de Londres. O quadro tinha o preço inicial de 477.700 euros (1,55 milhão de reais), mas foi arrematado por 3.818.320 euros (12.366.661 reais).

É justo reconhecer que o Fórum Filatélico adquiriu a obra no exterior, e por isso poderia voltar a exportá-la a qualquer momento. O vendedor (o organismo devedor) amparou-se em uma lei de 28 anos atrás. Uma regulação que dava essas facilidades com o objetivo de fomentar o colecionismo em uma Espanha onde isso era uma raridade. Resultado? Outra peça perdida.

Porque a grande arma para evitar prejuízos ao patrimônio é a legislação. Uma norma rigorosa que pelo menos bloqueie a saída de peças quando não há, como agora, dinheiro público para comprá-las. Tanto é assim que em 2013 o Ministério da Cultura não adquiriu nenhuma obra em leilão no exterior. Lá fora é preciso competir com o resto dos interessados, e não há o direito de preferência para a compra. A última aquisição mais vultosa data de 2011, um conjunto de 42 paisagens urbanas de autoria de Genaro Pérez Villaamil, procedentes do acervo do duque de Claredon.

O orçamento do Ministério da Cultura para aquisições é atualmente 85% menor do que na época do boom econômico. Neste ano, a Junta de Qualificação de Bens tramitou a exportação de 14.277 objetos artísticos, dos quais só 68 (0,48% do total) foram impedidos de deixar a Espanha. Sobre esse número, 34 foram adquiridos internamente, 11 foram posteriormente autorizados a saírem, numa segunda rodada de avaliações, e 23 não foram vendidos. Essas obras com exportação bloqueada “são as imprescindíveis para o nosso patrimônio”, observa um representante do órgão público de avaliação.

Apesar dos indícios, Dalia Padilla, diretora da Christie’s em Madri, recorda que “as leis [de exportação] são muito claras”. A Espanha tem uma norma semelhante à francesa e à italiana (as obras com mais de cem anos devem receber uma autorização de exportação, assim como todos os bens incluídos no Inventário Geral). O espírito da lei se distancia do modelo inglês. “Quanto mais restritiva for uma norma, mais ela provocará um mercado negro”, adverte o colecionador Juan Várez.

Dos 14.277 objetos avaliados neste ano, só 68 foram impedidos de deixar o país

Mas esse laissez faire, laissez passer também produz seus monstros. Meses atrás, voou para o Catar o óleo Criança com Pomba, de Picasso, um dos ícones da National Gallery londrina, que durante 30 anos expôs a obra em suas paredes. O quadro era propriedade da família galesa Aberconway, até que seus membros o puseram à venda na Christie’s, de forma privada, em 2012. Até abril deste ano, o museu britânico tentou – graças a uma proibição temporária de exportação – obter recursos públicos para impedir sua saída da Inglaterra. Não conseguiu, e precisou revogar o veto. O Lorde Inglewood, que se mobilizou para obter o dinheiro, qualificou a perda da tela adquirida pelo emirado árabe como “uma grande vergonha”.

Por isso, é preciso tomar precauções. Tendemos a associar a espoliação na arte apenas à pintura, e é necessário olhar mais para frente: para o solo e o mar. A Espanha tem um dos maiores patrimônios arqueológicos do mundo, tanto em terra como submerso. Casos como o do Odyssey, das 595.000 moedas de ouro e prata extraídas ilegalmente do casco de navio Nuestra Señora de las Mercedes e do espólio dos capacetes celtíberos de Aranda de Moncayo nos recordam disso. Mas também é o caso da perda da coleção – 313 peças – de arte pré-colombiana Barbier-Mueller, que durante 15 anos ficou exposta no Palácio Nadal, em Barcelona, e que a família vendeu em março passado na Sotheby’s. É verdade que nunca foi patrimônio da cidade, porque estava alugada por seu proprietário. Entretanto, também é verdade que em algum momento o Estado a tentou comprar, embora “o inflado preço, as sombras sobre a procedência de algumas peças e as condições de exposição deram cabo da ideia”, recorda Félix Jiménez Villalba, subdiretor do Museu da América, em Madri.

Certamente, essa perda não atinge apenas as épocas pré-colombianas, mas também as atuais. Tanto é assim que a crise arrastou meses atrás a coleção do grupo imobiliário Urvasco, que foi liquidada por completo no salão londrino da Christie’s para saldar as dívidas contraídas junto ao governo provincial de Biscaia. O acervo de 45 obras (Anish Kapoor, Cy Twombly, Georg Baselitz, Richard Serra…) compunha a coleção Homenagem a Chillida, criada como tributo ao escultor após sua morte, em 2002, e depositada no Museu de Belas Artes de Bilbao. O conjunto foi oferecido em doação à Deputação Foral de Biscaia, que no entanto a rejeitou. “Nunca deveriam ter saído daqui. Nunca se voltará a reunir uma coleção igual”, lamenta Pedro Carreiras, galerista de Bilbao responsável por reunir as obras. “Mas, com a crise… A Deputação preferiu qualquer quantia em dinheiro.”

Seja como for, advertem os especialistas, essa novela não pode estar formada apenas por normas e cifras. “Todos temos uma responsabilidade com o futuro. Há muitas obras que estão indo embora”, admite Manuel Borja-Villel, diretor do Museu Reina Sofía. “E não é só o que perdemos, e sim o que poderíamos ter tido e já não teremos. É um problema grave. E não é uma questão de dinheiro, mas sim de atitude. Se você quer que as obras fiquem, pode comprar promovendo a dação [pagamento de impostos com as peças].”

Para isso, é preciso haver sensibilidade e uma atitude diferente perante os indícios de que a Espanha tem um problema de conservação do seu patrimônio. O catedrático Francisco Calvo Serraller apresenta um exemplo pungente: “A saída do Constable foi um disparate político”. Ele se refere à venda de A Eclusa, obra do pintor britânico John Constable, uma das joias da coleção Thyssen, que Carmen Cervera vendeu por “falta de liquidez”. Conseguiu 90,6 milhões de reais. Mas, para o especialista, o mais grave, paradoxalmente, é o fato de uma infinidade de famílias espanholas guardarem obras há gerações sem comunicarem isso às autoridades. “Uns 90% de nosso patrimônio estão sem declarar. Não temos nem ideia do que perdemos, nem do que estamos perdendo. Qualquer um pode tirar peças da forma mais impune no espaço Schengen”, alerta Calvo Serraller.

Essa espoliação cotidiana se refugia numa Europa sem controles fronteiriços, numa legislação que em caso de espólio, como tal, aplica no máximo uma pena de três anos de prisão – “Seria desejável a criação de um delito específico que o tipifique e o agravamento das penas”, analisa David Velázquez, sócio de direito penal do escritório de advocacia Cuatrecasas – e uma regulamentação que asfixia a arte e os terrenos vizinhos. “Que estímulo existe para declarar o patrimônio?”, questiona Calvo Serraller. O mercado espanhol parece tão pequeno que qualquer família preferirá vender em Londres ou Nova York em vez de Madri, já que o preço que conseguirá será superior.  – http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/26/cultura/1388080931_964495.html

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