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Morreu Nelson Mandela, o político global

Posted by REPÚBLICA BANANA PEOPLE em dezembro 5, 2013

Morte de Nelson Mandela foi anunciada há momentos pelo presidente sul-africano Jacob Zuma.

Nelson Mandela (1918-2013)
Nelson Mandela (1918-2013)

Morreu Madiba. Morreu Nelson Mandela. Homem de Estado, Presidente da África do Sul (1994-1999), o mais conhecido presidiário do mundo, defensor da liberdade e dos direitos dos desfavorecidos, paladino da igualdade de oportunidades e do fim de todas as formas de opressão, Nelson Mandela morreu hoje em casa em Joanesburgo. Tinha 95 anos de idade.

A nação sul-africana chora o nonagenário que se encontrava fragilizado pela persistência de uma infeção pulmonar. Mandela tinha passado por um internamento hospitalar rápido, em 10 de março, para revisão do estado da infeção, que o mantivera internado 18 dias em dezembro de 2012. Ainda que ninguém possa estranhar que o fim chegue em idade avançada, Madiba tornou-se no símbolo universal que ninguém vê partir sem desgosto.

A morte de Mandela foi anunciada esta noite pelo presidente da África do Sul, Jacob Zuma, em conferência de imprensa.

Legado político

O seu legado político ficou claramente expresso na frase que dirigiu aos milhares de pessoas que se juntaram em Hyde Park, Londres, em Junho de 2008, para comemorar os seus 90 anos: “Onde quer que haja pobreza e doença, onde quer que os seres humanos estejam a ser oprimidos, há trabalho a fazer. Após 90 anos de vida, é tempo de novas mãos empreenderem a tarefa. Agora, está nas vossas mãos”.

A vida de Nelson Mandela personifica a ideia de que uma pessoa tem o poder de fazer a diferença e de deixar a sua impressão digital única no mundo. Nasceu Rolihlahla Mandela em 18 de Julho de 1918, na pequena vila de Mvezo, na província do Transkei, na África do Sul rural. Mandela é filho da segunda de quatro mulheres de um conselheiro Xhosa que estava destinado a ser chefe, mas que acabou por perder o título e a fortuna, morrendo quando Rolihlahla tinha apenas nove anos. A mudança de estatuto forçou a mãe a mudar-se com a família para Qunu, uma aldeia ainda menor a norte de Mvezo, e, por sugestão de um amigo do seu falecido pai, Rolihlahla foi batizado pela Igreja Metodista, foi o primeiro da família a frequentar a escola onde o professor lhe anunciou que passaria a chamar-se Nelson.

Da aldeia ao ANC

Tinha sido adotado pelo chefe Jongintaba Dalindyebo, o regente do povo Thembu, mudou-se para a capital de Thembuland para a residência real do chefe onde ouviu pela primeira vez falar de como África tinha vivido em paz relativa até à chegada dos brancos. Em 1939, entrou para a única universidade que podia ser frequentada por negros na África do Sul, a University College de Fort Hare, o equivalente no país a Oxford ou Harvard e foi ali que foi eleito para o Conselho de Representação dos Estudantes onde os seus atos, considerados de insubordinação, lhe valeram ser suspenso até ao final daquele ano letivo.

Ao voltar a casa, Mandela viu-se confrontado com o facto de lhe ter sido escolhida uma mulher para casar e fugiu para Joanesburgo, onde trabalhou numa série de funções enquanto terminava o seu bacharelato por correspondência. Entrou na Universidade de Witwatersrand para estudar direito e envolveu-se ativamente no movimento anti-apartheid inscrevendo-se no ANC (Congresso Nacional Africano) em 1942. Sete anos mais tarde, o ANC adotou oficialmente os métodos de boicote, greve, desobediência civil e não-cooperação, tendo como objetivos a plena cidadania, a redistribuição da terra, direitos sindicais e educação gratuita e obrigatória para todas as crianças.

Militância e prisão

Durante 20 anos, Nelson Mandela liderou uma campanha pacífica e não violenta contra o Governo e as suas políticas racistas e fundou um escritório de advocacia com Oliver Tambo que dava aconselhamento a negros que não dispunham de representação. Mandela e mais 150 pessoas foram presas em 1956 acusadas de traição pela sua prática política embora tenham acabado por ser ilibados. Já menos convencido da eficácia dos métodos pacifistas que defendia, Mandela organizou uma greve nacional dos trabalhadores de três dias em 1961 pela qual foi preso no ano seguinte. Em 1963, foi levado a tribunal e condenado, com outras dez pessoas, a prisão perpétua por ofensas políticas, incluindo sabotagem.

Nelson Mandela foi detido em Robben Island 18 dos 27 anos de pena que cumpriu. Após 27 anos como o prisioneiro nº 46664 sob o regime de apartheid na África do Sul, Mandela emergiu como cabeça do ANC (Congresso Nacional Africano) para fazer a reconciliação com os seus opressores e conduzir o país pacificamente na sua transição após a era de 46 anos de segregação racial. Quando foi libertado, apelou de imediato às potências estrangeiras para que não reduzissem a sua pressão sobre o regime de Pretória com vista a uma reforma constitucional.

Mandela ganhou o Prémio Nobel da Paz em 1993, quando era Presidente Frederik de Klerk e, em 1994, foi eleito o primeiro Presidente da África do Sul democrática. Cumpriu um único mandato, de 1994 a 1999, tendo sido sucedido pelo seu vice-presidente, Thabo Mbeki. Mandela foi casado três vezes: com Evelyn Ntoko Mase (1944-1957) com quem teve quatro filhos; com Winnie Madikizela-Mandela (1958-1996) com quem teve duas filhas e com Graça Machel (1998). O Dia Nelson Mandela foi instituído em 2009 para celebrar a sua vida e a chamada à ação que fez ao longo da sua vida. Celebra-se a 18 de Julho e, propositadamente, não é um feriado para que inspire todas as pessoas em todo o mundo a trabalharem pelos valores que Nelson Mandela defendeu ao longo de toda a sua vida. Cristina Peres -http://expresso.sapo.pt/morreu-nelson-mandela-o-politico-global=f844711

Morre aos 95 anos o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela

Líder da luta contra o regime de segregação racial foi o primeiro presidente negro do país e ganhou o Nobel da Paz

Rio – Morreu aos 95 anos o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela. Líder da luta contra o regime de segregação racial do Apartheid, Mandela ficou preso por 27 anos antes de se tornar o primeiro presidente negro do país e ganhar o Nobel da Paz.

>> GALERIA DE FOTOS: Mandela, herói da liberdade

Nelson Mandela – Foto:  Efe

Mandela esteve internado desde o dia 8 de junho em um hospital na África do Sul. Desde dezembro passado, ele foi internado em quatro ocasiões, vítima das infecções pulmonares que sofre há anos, provavelmente devido às sequelas da tuberculose contraída na prisão da ilha de Robben, onde passou 18 dos 27 anos de prisão sob o regime racista do apartheid. Segundo a “CBS”, o fígado e os rins de Mandela tinham apenas 50% de funcionamento e o ex-presidente “não respondia” e “não abria os olhos”. Em seguida, a presidência sulafricana comunicou que o estado de Mandela era “grave mas estável”. Em Pretória, diante do Mediclinic Heart Hospital, onde Mandela esteve internado, várias pessoas depositavam mensagens, balões e flores.

Luta contra segregação racial

Nelson Rolihlahla Mandela nasceu em 18 de julho de 1918 em um vilarejo da cidade de Qunu,na África do Sul. Formado em direito, foi um dos importantes líderes revolucionários na luta contra o Apartheid em 1942, regime de segregação racial implantado na África do Sul que obrigava os negros a viverem separados dos brancos e os privavam de vários direitos políticos, sociais, econômicos e culturais.

Entrou para a oposição e fez parte do Congresso Nacional Africano, CNA, em 1944, onde se juntou com Oliver Tambo e Walter Sisulu na luta contra o regime segregacionista. No ano seguinte, participou da divulgação da “Carta da Liberdade” que tinha argumentos antiapartheid. Apesar de sempre ter defendido a luta pacífica, por meio de discursos, Mandela passou a apoiar a luta armada em 1960, após ver cerca de 69 manifestantes sendo mortos a tiros por policiais sul-africanos em 21 de março , dia que ficou conhecido como o “Massacre de Sharpeville”.

Em 1961, tornou-se comandante do braço armado do CNA, o “Lança da Nação” e buscou ajuda internacional para financiar o combate contra a segregação racial. Sua vida mudou quando foi preso em agosto de 1962 após informes da CIA à polícia e condenado a cinco anos de prisão por incentivo às manifestações contrárias ao regime e saídas do país sem autorização. Três anos depois, Mandela foi julgado novamente e condenado à prisão perpétua por planejar manifestações com armamentos. Detido de 1964 a 1990, mesmo na prisão por 27 anos, conseguiu enviar mensagens organizando e incentivando a luta contra o regime de segregação racial na África do Sul. Durante esse tempo preso, tornou-se o principal símbolo antiapartheid no país.

Líder antiapartheid, Mandela foi o maior símbolo na luta contra segregação racial na África do Sul. Nasceu em 18 de julho de 1918- Foto:  Efe

Nobel da Paz após deixar prisão

Em 11 de fevereiro de 1990, o então presidente do país, Frederik de Klerk solicitou a libertação do líder revolucionário devido à pressões internacionais. Klerk pediu, também, a retirada da ilegalidade do Congresso Nacional Africano. Com isso, o presidente Klerk e Mandela, já com 72 anos, dividiram em 1993 o prêmio Nobel da Paz, pelos esforços em acabar com o regime segregacionista na África do Sul. Nelson Mandela tornou-se o primeiro presidente negro do país em 1994 e foi o principal responsável pela restabelecimento da paz no país sul-africano, principalmente ao promover a reconciliação entre os grupos internos.

O líder encerrou o seu mandato em 1999, se afastando totalmente da política e passando a se dedicar exclusivamente à causas humanitárias de várias organizações sociais. Ele recebeu muitas homenagens no exterior como a a Ordem de St. John, da rainha Elizabeth 2ª., a medalha presidencial da Liberdade, de George W. Bush, o Bharat Ratna (a distinção mais alta da Índia) e a Ordem do Canadá.

Em 2003, Mandela voltou ao cenário político mundial mais uma vez fazendo um discurso contra a política externa do presidente norte-americano George W. Bush. No mesmo ano, apoiou campanha de arrecadação de fundos contra a AIDS.

O anúncio da retirada de Mandela da vida pública veio em junho de 2004, aos 85 anos. Exceto pelo seu compromisso na luta contra a AIDS. O aniversário de 90 anos do líder revolucionário tornou-se um ato público com um show realizado em Londres em julho de 2008, que contou com a presença de célebres artistas a favor da luta contra a doença. O ex-presidente emocionou a todos durante sua aparição no encerramento da Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul. Mandela foi carregado por um carrinho de Golfe pelo gramado do estádio Soccer City e acenou para o público que o aclamou de pé. Nelson Mandela esteve duas vezes no Brasil. A primeira em 1991, quando visitou o Rio, São Paulo, Salvador e Brasília. A segunda foi em julho de 1998 para um encontro com o então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Mandela no cinema

Em 2009, um filme sobre a vida de Madela foi lançado pelo renomado diretor de Hollywood, Clint Eastwood. Na trama de ‘Invictus’, o célebre Morgan Freeman vive Mandela e Matt Damon interpreta François Pienaar, o capitão da equipe de rugby da África do Sul. O filme aborda um capítulo da vida do líder, quando, recentemente eleito presidente, Nelson Mandela (Morgan Freeman) decide usar o esporte para unir a população. Ele se aproveita da proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi, realizada pela primeira vez no país, e, para isso, chama para uma reunião Francois Pienaar (Matt Damon), e o incentiva para que a seleção nacional seja campeã. http://odia.ig.com.br/noticia/mundoeciencia/2013-12-05/morreu-aos-95-anos-o-ex-presidente-da-africa-do-sul-nelson-mandela.html

Morre Nelson Mandela

Falece o primeiro presidente negro da África do Sul e o homem que foi símbolo contra o ‘apartheid’

Nelson Mandela, em junho de 2005. / ALEXANDER JOE (AFP)

Nelson Mandela, o primeiro presidente negro da África do Sul e o homem base para acabar com o regime racista do apartheid, pelo qual uma minoria branca dominou durante décadas seus compatriotas, faleceu aos 95 anos em um hospital de Pretória. A saúde de Madiba, como carinhosamente era conhecido por pertencer à etnia xhosa, era frágil fazia tempo. Durante os últimos dois anos teve de ser hospitalizado em cinco ocasiões, a última por uma infecção pulmonar, em 8 de junho último, um problema que prejudicou sua saúde desde os tempos de confinamento na prisão da ilha de Robben.

Desde sua última hospitalização e depois de conhecer a gravidade de seu estado de saúde, as ruas da África do Sul rezaram por sua vida, embora também houve vozes, como a do diário sul-africano Sunday Times, que pediram que deixem descansar o ex-presidente. As últimas imagens oferecidas do nonagenário foram captadas em abril deste ano, pouco depois de receber a alta do hospital. O presidente Zuma foi a seu lar para visitá-lo, mas a instantânea que resultou daquele encontro mostrou um Mandela ausente, sério, magro e frágil. A visita provocou fortes críticas contra o próprio Zuma pela cena que deixou entre os sul-africanos.

A seu lado em todo momento nesta última hospitalização ficou sua esposa, Graça Machel, que em uma nota agradeceu em 17 de junho último, ante as boas notícias que chegavam desde o quarto de Madiba, as “milhares” de mensagens “de amor, consolo e esperança”.

No último dia 23, a presidência do país, em um comunicado assinado pelo chefe de Estado, Jacob Zuma, informou que ele piorava, de que sua condição passava a ser “crítica”. “Está em boas mãos”, expressou Zuma. Madiba não pôde superar os problemas pulmonares.

Com Mandela desaparece uma das grandes figuras políticas do século XX. Sua eleição como presidente no primeiro pleito multirracial, realizado em 27 de abril de 1994, foi a culminação de uma trajetória que começou na juventude do partido Congresso Nacional Africano. Condenado à prisão perpétua em 1962 por sua luta contra o apartheid, passou 27 anos encarcerado, a maioria na ilha de Robben, onde era o preso 46664.

O mundo submeteu a África do Sul branca ao boicote, as sanções e ao isolamento internacional por causa da política de segregação racial. Durante seus últimos anos entre grades, negociou em segredo com o presidente Frederik de Klerk o fim do sistema de apartheid e uma vez livre retomou a liderança de seu partido, que foi legalizado como outras organizações que lutava contra o regime. Ambos os políticos receberam o Nobel da Paz em 1993. Depois de um único mandato de cinco anos como presidente, se retirou da política. http://brasil.elpais.com/brasil/2013/06/24/internacional/1372076293_304477.html

Um país melhor, mas não tanto

A África do Sul que deixa Mandela avançou na reconciliação entre negros e brancos, mas não teve sucesso em reduzir a brecha entre ricos e pobres

Imagem de arquivo de 19 de julho de 2005 que mostra Mandela (e.) e o ex-presidente norte-americano Bill Clinton. / JON HRUSA (EFE)

“Vai ser um dia muito triste para todos, também para nós”. Esse “nós” são os brancos sul-africanos e quem fala Maggie Buckingham, uma descendente de ingleses que se emocionava falando do “bom e generoso” que foi o líder negro depois de sua saída de prisão em 1990 e de sua chegada à presidência quatro anos depois. O sentimento desta mulher é uma fotografia bastante exata do que boa parte dos brancos, só uns 10% da população, sentem hoje pela morte de Nelson Mandela.

Poucas coisas existem na África do Sul que unam a todos. Mandela é uma delas, um personagem que levanta ainda enormes simpatia e carinho em todos os grupos raciais. A outra é bem mais prosaica. É a carne. É complicado ser vegetariano na África do Sul, uma comida sem carne não é comida. Jocosamente há quem assegure que o esporte nacional por excelência não é o futebol nem o rugby senão a popularíssima braai, o nome local com o que se conhece o churrasco.

Para além do que poderia ser uma piada, brancos, negros, coloured (mulatos) e índios vivem cada um em seu mundo. A nação arco-íris (Rainbow nation) em que sonharam Mandela e seu amigo o arcebispo Desmond Tutu é mais plural, com 11 línguas oficiais de igual categoria e outras tantas etnias, mas tão só a incipiente e pequena classe média se atreve a se misturar nos escassos bairros propriamente mistos ou inclusive se casarem, sobretudo, entre os que nasceram após o apartheid.

Mandela apostou na reconciliação, e evitou desse modo uma guerra civil

O grosso da população mantém-se impermeável a esse processo, embora sem dramatismos e com uma educação extraordinária entre todas as partes que evita grandes conflitos. “A separação racial não é o principal problema de África do Sul e de fato não tem porque ser nem um problema”, sentencia Lucy Holborn, diretora do Instituto sobre Relacionamentos Raciais (SAIRR).

Na incipiente democracia Mandela apostou claramente pela reconciliação, evitando uma guerra civil que muitos agouravam, mas que teve o altíssimo custo de “não transformar a sociedade”, segundo Adam Habib, vice-reitor da Universidade Witwatersran e professor de Ciências Políticas. O objetivo era reconduzir um relacionamento traumatizado por anos de domínio branco. Para isso, o presidente pediu a todas as partes generosidade para perdoar. Uma década após que a Comissão da Verdade e a Reconciliação terminasse de escutar a vítimas e carrascos e anistiaram aos que confessaram crimes, não se cumpriu o compromisso de pesquisar os casos anistiados. De fato, a polícia só resolveu um crime não anistiado e a promotoria tem pendentes 350 casos. Por aí Mandela recebeu críticas dos setores negros. Reclamam de que, nesse afã, o presidente cedeu e deu demasiadas concessões aos brancos sem, por exemplo, exigir a mudança e uma redistribuição da riqueza. Empresas e a terra seguem em mãos de seus antigos donos brancos, que em alguns casos, como o dos suculentos benefícios das reserva mineiras, cotam na Saca de Londres enquanto pagam salários míseros e oferecem condições duríssimas aos trabalhadores negros.

As empresas e a maior parte da terra seguem nas mãos dos brancos

Sem dúvida, na opinião de Verne Harris, a reconciliação “exigia estes sacrifícios”. Harris é o chefe do Programa de Memória da Fundação Mandela e com a perspectiva dos anos não tem reparos em assinalar que depois da “épica” dos anos noventa não se cumpriu o “sonho de Mandela”. Inclusive aponta “grandes e pequenos erros” de Mandela que deixaram ver “que era um grande líder, mas um humano afinal de contas”.

Neste ponto Habib fala que em 1994 “as promessas eram muito românticas”, quiçá “demasiado”, embora, faz questão de dizer que a África do Sul “é hoje um país melhor que era”.

Desde seu escritório no centro de Johannesburgo, olha pela janela do campus e explica que nos anos oitenta, por exemplo, não havia estudantes negros e que quando um dos brancos tinha um problema de saúde na aula tinha que ir à outra ponta da cidade para que o atendessem, porque o hospital mais próximo estava destinado só a pacientes não brancos.

“Estamos divididos, sim, mas muito menos que há 20 anos”, continua o professor, para quem comparar comportamentos ou estatísticas atuais com as do regime do apartheid é pouco menos que um disparate porque com o establishment racista “os negros não existiam” nem se contabilizavam.

Quiçá a África do Sul só precise de tempo para se recompor. Harris admite que Mandela “seduziu” e convenceu de que poderia arranjar os problemas do país em pouco tempo, “mas isto vai levar gerações”. Os esforços para a reconciliação deixaram as políticas sociais em um segundo plano e ainda hoje se está pagando a fatura. Mandela foi melhor ícone e estadista do que gestor, ou chegou demasiado velho ao poder, admite.

Madiba foi melhor ícone e estadista que gestor; ou chegou muito velho ao poder

Mandela, ou Madiba como alguns seguem lhe chamando afetuosamente pelo nome de seu clã xhosa, foi eleito presidente com 72 anos e exerceu só durante uma legislatura de cinco anos, até 1999. Em seu mandato assentaram-se as bases da África do Sul democrática com uma economia de liberalismo e mecanismos de correção de desigualdades que demonstraram ser insuficientes. Deixou os assuntos domésticos para seus ministros e se centrou em lavar a cara de África do Sul, convencer aos investidores estrangeiros e em evitar o temido risco de confrontação racial.

Agora ninguém teme uma revolta embora a cada nova estatística machuque. O presidente atual, Jacob Zuma, tem motivos ao ir adiante porque, durante a democracia, a economia cresceu 83%, o que lhe permitiu entrar no grupo de emergentes, o BRICS, junto a China ou Brasil.

Certamente é uma cifra de impacto, embora há que se ter em conta de onde vinha e no que repercutiu tanto desenvolvimento. Nestes anos todos os grupos raciais viram aumentar seu poder aquisitivo mas se acentuaram os contraste entre os extremos. Embora romperam-se algumas barreiras raciais, a maioria dos ricos continuam sendo brancos, enquanto os negros (80% do censo) são os que engrossam de longe a base da pirâmide, na qual caíram também alguns brancos. Assim, um estudo da Universidade de Cidade do Cabo assinala que entre 2004 e 2012 a classe média negra cresceu em 2,5 vezes, até chegar aos 4,2 milhões de pessoas, apenas 13%, mas com mais vigor do que a branca.

Em seu mandato assentaram-se as bases da África do Sul democrática

Mesmo assim, uma família branca média ingressa no mercado de trabalho seis vezes mais que uma negra e para equiparar salários terá que esperar duas gerações, e o desemprego entre os negros multiplica quase por seis o dos brancos, que se mantêm nas melhores casas de bairros acomodados e nos trabalhos mais qualificados. O grosso dos negros com formação está se incorporando agora ao mercado de trabalho, mas os pais destes jovens ocupam os postos de jardinagem e limpeza dos lares brancos.

No entanto, o vice-reitor Habib se inclina mais em falar de “desigualdades sociais que raciais”, apesar de que as cifras evidenciam o fator racial, e afirma que, se o país não é capaz de acabar com elas, “terá fracassado na reconciliação já não entre alvos e negros senão entre ricos e pobres”. Existe um problema que freia esse desenvolvimento e é o baixo nível da educação. A formação tem se democratizado, mas à custa da qualidade que recebem os alunos, critica Holborn. Assim, agora há muitos mais jovens educados embora pior qualificados que no apartheid.

A previdência percorreu o mesmo caminho e o sistema público é hoje refúgio só para os mais empobrecidos da sociedade, enquanto as mútuas e seguradoras são um dos grandes negócios da África do Sul, junto às empresas de segurança privadas.

Uma família branca média ingressa seis vezes mais no mercado de trabalho do que uma negra

Essa é outra grande obsessão que atravessa todas as camadas sociais, que se juntam em casas protegidas com câmeras ou alambrado eletrificado. Os índices de violência e vitimização levaram à Interpol a declarar África do Sul como a “capital mundial” das violações. Com mortos ou os crimes satânicos entre adolescentes. “Somos uma sociedade violenta e não estamos aprendendo”, responde Harry, que admite que tanta violência é o resultado de que o “apartheid brutalizara a gerações inteiras”.

O apartheid tem parte de culpa da origem de muitos males neste país, mas a justificativa não ajuda a acalmar “a raiva” e a “frustração” dos mais pobres do que ter avanços sociais tão lentos, concordam os responsáveis pela Fundação Mandela e o SAIRR. O Governo construiu um milhão de moradias sociais e reformado os townships onde o regime supremacista enclausurou negros e índios para segregá-los dos alvos. O perigo é que estes sentimentos de que o Executivo abandonou a sua sorte aos mais fracos sejam potencializados e canalizados por grupos radicais ou populistas, aponta Holborn em referência a Julius Malema, o presidente das juventudes do ANC (o partido de Mandela no Governo há duas décadas), que com um discurso de nacionalização das minas atraiu um grande número de jovens fartos de esperar que o desenvolvimento econômico lhes sorria. Malema batallhou pela presidência do partido contra Zuma mas perdeu nas primárias e sua carreira parece ter afundado depois que descobriram uma fraude milionária para construir uma casa em Sandton, o bairro dos negócios por excelência de Johannesburgo.

O de Malema não é o único caso de corrupção política. Inclusive o presidente Zuma tem sido acusado de construir uma enorme mansão em seu povoado natal, valorizada em 20 milhões de euros, tirado do erário público.

Com tudo, o ANC segue imbatível nas urnas, apesar de que sofre o desgaste com cisões que alguns preveem que acabarão por arrebatar a até agora inquestionável maioria absoluta. De chegada, terá que esperar ao menos uma década, vaticinam os cientistas políticos.

Com o fim do apartheid aconteceu uma diáspora de brancos para a Austrália, Reino Unido ou Estados Unidos, temerosos de batalhas campais com os negros ou de perder seus privilégios. “A maioria era racistas”, sustenta Marie Roux, afrikaaner de origem francesa que tem dois cunhados no exílio dourado. No entanto, agora, com o país em calma e fugindo da recessão global, há quem se propõe a volta. Destaca Holborn, para quem a volta é uma mostra de que a reconciliação e pacificação de Mandela foi um sucesso. “Voltam a estar orgulhosos da África do Sul”, explica esta cientista política, e o mais importante, instalam-se no país “investindo econômica e sobretudo emocionalmente”.

A cada oito horas assassinam uma mulher e proliferam os roubos

Não é suficiente para que, sobretudo entre muitos dos negros mais pobres, se tenha instalado a sensação de que o regime racista os tratava melhor.

Afirmam que tinha mais emprego, menos crimes e minimizam o fato de que não lhes reconhecesse como cidadãos de pleno direito. “Sim, antes não podia votar e agora não tenho um trabalho que me permite viver como os brancos”, lamenta Mary Mlambo, que vive fazendo bicos.

À África do Sul falta recuperar o “orgulho”, aponta o professor Habib. Um orgulho, por exemplo, que na Copa do Mundo de 2010, voltou a unir as peças sociais como fez no final Mundial de Rúgbi de 1995 que ganhou África do Sul e um hábil Mandela utilizou para que os negros apoiassem uma seleção tradicionalmente de um esporte de brancos que não tinham nenhum apego. Durante o mês em que o país foi a capital do futebol, as estatísticas de violência baixaram, as cidades se mantiveram limpas e a gente respirava calma.

Há uma pergunta no ar. Está a África do Sul democrática preparada para ter um presidente branco? Seria a prova de que as diferenças raciais se salvaram? Quiçá, mas para Habib o que está claro é que os cidadãos negros não teriam nenhuma dificuldade em votar em um branco nas eleições. Outra coisa é que o ANC, o partido dominante, seja capaz de lhe ceder a presidência a um não negro. Seguramente faltam anos para um “Obama branco” mas um otimista Harris assinala uma foto de seu filho de vinte anos junto com sua noiva negra para responder às questões: “O futuro é deles, que já cresceram juntos, sem tantos preconceitos”.  – http://brasil.elpais.com/brasil/2013/06/09/internacional/1370730859_256389.html

Morre Nelson Mandela, o homem que libertou a África do Sul negra

O mandatário conduziu a política com maestria, combinando princípios inflexíveis, visão estratégica, pragmatismo e um encanto infinito, nascido da sua enorme autoconfiança

O ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela. / JON HRUSA (EFE)

Nelson Mandela chegou cedo para trabalhar em 11 de maio de 1994, o dia seguinte à sua posse como primeiro presidente negro da África do Sul. Andando pelos corredores desertos, decorados com aquarelas emolduradas que enalteciam as façanhas dos colonos brancos na época da Grande Marcha Bôer, ele se deteve diante de uma porta. Havia escutado ruído no lado de dentro, por isso bateu. Uma voz respondeu: “Entre”, e Mandela, que era alto, olhou para cima e se viu diante de um enorme africâner chamado John Reinders, chefe do protocolo presidencial durante os mandatos do último presidente branco, F. W. de Klerk, e seu antecessor, P. W. Botha. “Bom dia, como vai?”, disse Mandela, com um amplo sorriso. “Muito bem, senhor presidente, e o senhor?”. “Muito bem, muuuito bem…”, respondeu Mandela. “Mas, se me permite perguntar, o que está fazendo?” Reinders, que estava colocando seus pertences em caixas de papelão, respondeu: “Estou levando minhas coisas, senhor presidente. Vou mudar de trabalho”. “Ah, muito bem. E para onde vai?” “Volto ao departamento de prisões. Trabalhei lá como comandante, antes de vir aqui para a Presidência.” “Ah, não”, sorriu Mandela. “Conheço muito bem aquele departamento. Não recomendo que faça isso.”

Com ar sério, Mandela tentou então convencer Reinders a ficar. “Olhe, nós viemos do campo. Não sabemos como administrar um órgão tão complexo como a Presidência da África do Sul. Precisamos da ajuda de pessoas experientes como você. Eu lhe peço, por favor, que permaneça no seu cargo. Tenho intenção de não cumprir mais do que um mandato presidencial, e então, naturalmente, você será livre para fazer o que quiser.” Reinders, tão espantado quanto extasiado, não precisou de mais explicações. Enquanto balançava a cabeça, perplexo e admirado, começou pouco a pouco a esvaziar as caixas.

Reinders, cujos olhos se encheram de lágrimas ao recordar a história algum tempo depois, me contou que, durante os cinco anos que trabalhou com Mandela viajando por todo o mundo com ele, só recebeu demonstrações de cortesia e amabilidade. Mandela o tratou sempre com o mesmo respeito que ao presidente dos Estados Unidos, o papa ou a rainha da Inglaterra, que, por sinal, o adorava. O primeiro presidente negro da África do Sul devia ser a única pessoa do mundo, talvez com a exceção do duque de Edimburgo, que sempre a chamava de “Elizabeth”, ou ao menos o único que podia fazê-lo sem ser repreendido. (Um amigo meu lembrava de que certa noite, jantando com Mandela em sua casa em Johanesburgo, uma criada apareceu com um telefone sem fio. Era uma ligação da rainha da Inglaterra. Com um amplo sorriso, Mandela se aproximou do aparelho e exclamou: “Ah! Elizabeth! Como vai? Como estão os meninos?”)

O que a relação de Mandela com Reinders revela ─ e ela é a mesma que tinha com todos os seus colaboradores, por mais humildes que fossem seus cargos ─ é o segredo de seu sucesso como líder político. Se a política consiste em conquistar as pessoas, Mandela, como testemunharam numerosos políticos, foi o mestre consumado. Tinha à sua disposição um coquetel sedutor e irresistível composto de um encanto infinito, nascido de uma imensa autoconfiança, alguns princípios inflexíveis, uma visão estratégica e um pragmatismo absoluto. Sua atitude em relação a Reinders era a mesma que tinha mantido com seus interlocutores do governo do apartheid quando iniciou as negociações secretas com eles, durante os últimos cinco anos dos 27 e meio que passou na prisão: era a mesma que teve com toda a população branca, a qual acabou sendo quase totalmente convencida de que ele não só não era um terrível terrorista, como tinham sido programados para acreditar durante seu cativeiro, como era seu presidente legítimo, da mesma forma como era o rei sem coroa da África do Sul negra.

A relação que mantinha com todos os colaboradores, por mais humildes que fossem, é o segredo de seu sucesso como líder político. 

Teria lhe custado muito mais convencer a África do Sul branca a abandonar o apartheid e entregar o poder antes de ele ser preso, em 1962, e muito mais ainda 20 anos antes, quando se incorporou à luta pela libertação dos negros. O homem responsável por seu recrutamento foi Walter Sisulu, um astuto ativista sindical que, no momento de seu transcendental encontro (Mandela diria posteriormente, com senso de humor, que se teria livrado de muitos problemas se nunca tivesse conhecido Sisulu), era um militante com mais de dez anos de experiência no movimento que viria a liderar a libertação da África do Sul, o Congresso Nacional Africano (CNA).

A área rural do Transkei, onde tinha nascido e se criado em meio ao que, em comparação à miséria geral em seu entorno, eram privilégios tribais. Embora também tivesse recebido uma sólida educação secundária, era impossível disfarçar que ali, de pé, no escritório do ativista sindical, Mandela era um rude camponês diante de um Sisulu urbano e sofisticado. No entanto, foi Sisulu, que estava com 30 anos ─ Mandela tinha 24 ─, quem ficou impressionado, porque vislumbrou em Mandela a semente de um talento para a política que levaria muitos anos de luta e sacrifícios para amadurecer. Ao recordar, 50 anos depois, o que havia pensado daquele jovem altivo em seu escritório, Sisulu diria: “Ele me impressionou mais do que qualquer outra pessoa que eu já tivesse conhecido. Seu ar, sua simpatia… Eu procurava pessoas de verdadeiro calibre para ocupar cargos de responsabilidade, e ele foi um presente do céu”.

Demorou pouco para Sisulu convencer Mandela, que estudava Direito em Johanesburgo, a aderir à sua causa. Mandela triunfou nas duas frentes, e montou um escritório de advocacia com outro dirigente do CNA, Oliver Tambo. Mas onde teve mais sucesso foi na política. Ao carisma que Sisulu tinha visto nele, Mandela agregava um valor e um ímpeto que, durante as décadas de 1940 e 50, antes de ser encarcerado, provinham tanto de seu indignado senso das injustiças a que os sul-africanos negros eram obrigados a se submeter quanto do seu caráter inquieto. Ascendeu rapidamente na hierarquia e se transformou em presidente da Liga Juvenil do CNA, cargo que o levou a dirigir uma campanha nacional de desafio a um regime cujas leis de apartheid consagravam na Constituição as humilhações e as condições de escravidão de fato em que viviam os negros no extremo sul da África desde a chegada dos primeiros colonos brancos, em 1652. Durante aquela campanha, Mandela revelou ter um talento histriônico (seu biógrafo oficial, Anthony Sampson, o qualificou de “mestre do imaginário político”) que lhe seria útil muito tempo depois, quando saiu da prisão na era da televisão globalizada. Quando lançou a campanha, em 1952, conseguiu garantir a presença de um grande número de fotógrafos da imprensa ao atear fogo em seu passe, uma caderneta de identificação que era uma ignominia do apartheid, enquanto mostrava um imenso sorriso zombeteiro. A fotografia, publicada em todas as partes, eletrizou a população negra, e dezenas de milhares de pessoas seguiram seu exemplo.

A autoconfiança do jovem Mandela beirava o descaramento. Em uma reunião do comitê executivo do CNA, em meados dos anos 50, ofendeu aos líderes da organização quando proferiu um discurso no qual previu ─ com uma clarividência extraordinária ─ que um dia seria o primeiro presidente negro da África do Sul.

Winnie era a Ava Gardner de Soweto, e ele, Clark Gable.

Naquela época, com uma presença sempre visível na primeira linha de resistência ao apartheid, se vestia como um milionário. Seus ternos eram feitos no mesmo alfaiate do rei do ouro e dos diamantes da África do Sul, Harry Oppenheimer, e nunca deixou de ser o dândi de seu círculo social em suas incursões na vida noturna de Johanesburgo. As fotografias dos anos 50 mostram um homem com o ar confiante de uma estrela romântica de Hollywood. As mulheres se apaixonavam por ele, entre elas, Winnie Madikizela. E ele ─ que era casado e com filhos ─ também se apaixonou por ela. Winnie era a Ava Gardner do Soweto, e ele, o Clark Gable. Mandela se divorciou da primeira mulher, Eveline, e se casou com Winnie, com quem teve duas filhas, mas às quais, como se queixariam mais tarde, ele pouco via, sobretudo depois de ter sido nomeado comandante-chefe do novo braço militar do CNA, o Umkhonto we Sizwe ─ A Lança da Nação ─, em 1961, e se viu obrigado a ir para a clandestinidade.

Seu lado vaidoso o prejudicou. Determinado a ser um Che Guevara, adotou um slogan popular na época, “Tomaremos o poder feito Castro”, e insistia, contra as advertências de seus amigos, em usar uniformes revolucionários de cor verde toda vez que aparecia em público, apesar de a polícia o ter apontado como o homem mais procurado da África do Sul. Sua incapacidade de manter a discrição exigida pelas circunstâncias foi um dos motivos que levaram à sua prisão, em 1962: permaneceu 27 anos e meio atrás das grades.

A prisão o moderou, ensinou-o a canalizar para objetivos políticos realistas o seu talento para o palco e as suas artes de sedutor. Entrou cheio de fúria e saiu sábio, mas sempre impulsionado pela convicção heroica de que o respiro que obteve em seu julgamento em 1964, quando o condenaram à prisão perpétua em vez da morte, como se previa, o obrigava a cumprir seu destino como redentor futuro de seu povo. A grande lição que assimilou foi que o inimigo não seria derrotado pelas armas; que teria de convencer um dia os sul-africanos brancos a entregarem o poder voluntariamente, para que eles mesmos acabassem com o apartheid. A prisão, a pequena cela em que viveu na ilha de Robben durante 18 anos, foi seu centro de treinamento para a grande empreitada que o aguardava lá fora. A primeira lição, decidiu, teria de ser “conhece o teu inimigo”. Para decepção de alguns outros presos, se dispôs a aprender africâner ─ “a língua dos opressores” ─ e ler livros sobre a história dos africâneres. E depois se propôs a conquistar os carcereiros, porque pensou que seria a forma de conhecer as vaidades, os pontos fortes e fracos dos brancos em geral, para estar mais bem preparado quando chegasse o momento de tentar que cedessem a seus desejos.

O truque era não perder jamais sua dignidade nem seus princípios, negar-se a ser intimidado, e tratar com respeito a todos os que o rodeavam, com o “respeito normal e corriqueiro” que Walter Sisulu disse em uma ocasião ser o prêmio pelo qual havia lutado durante seus 60 anos de dedicação à política. Essas qualidades, unidas a seus modos majestosos, lhe permitiriam conquistar os dois primeiros membros do governo branco com quem ele ou qualquer outro dirigente negro tiveram contato. Durante os últimos cinco anos de prisão, realizou mais de 70 reuniões secretas com o ministro da Justiça, Kobie Coetsee, e o chefe nacional dos serviços de inteligência, Niel Barnard; o objetivo das reuniões era explorar a possibilidade de um acordo político entre negros e brancos. Enquanto ia ganhando a confiança desses dois obscuros personagens (considerados monstros por todo mundo durante os turbulentos anos 80), consolidou sua autoridade sobre os demais presos políticos, do mesmo modo como faria depois com a população negra em geral. Perguntei a Coetsee sobre aqueles encontros e, como Reinders, ele chorou ao se lembrar de Mandela, a quem definiu como a “encarnação das grandes virtudes romanas: dignitas, gravitas, honestas”. Barnard não foi capaz de chorar, mas esteve a ponto, e durante as sete horas em que conversamos sempre se referiu a Mandela chamando-o de “o velho”, como se estivesse falando do próprio pai.

Ao ser libertado, no dia 11 de fevereiro de 1990, Mandela empreendeu uma marcha triunfal por toda a África do Sul, para a qual estabeleceu uma mensagem muito nítida de reconciliação e desafio. Não era nenhum Gandhi, e se negou a pedir o fim da “luta armada” – que havia sido principalmente simbólica – enquanto o governo não desse sinais inequívocos de se comprometer com uma democracia de pleno direito, na que se aplicasse o princípio de uma pessoa, um voto. Não teve outra alternativa, porque o presidente F.W. de Klerk, a quem descreveu com elegância (e astúcia) como um “homem íntegro”, acreditou de início que iria se safar com alguma fórmula sui generis, semidemocrática, que contemplasse os “direitos da minoria” e assegurasse e perpetuasse os privilégios dos brancos. As negociações que se desenrolaram durante os quatro anos seguintes foram duras, mas nem de longe tão duras quanto aquilo que estava ocorrendo nos bairros negros, sobretudo na periferia de Johanesburgo. Os últimos estertores da besta do apartheid se manifestavam numa tentativa organizada de atrapalhar a transição, orquestrada por forças obscuras do aparato de segurança, aliadas com a organização negra conservadora Inkatha, cujo líder, Mangosuthu Buthelezi, zulu de extrema direita e beneficiário do sistema de “pátrias tribais” do apartheid, tinha tanto medo de um governo do CNA quanto qualquer branco. As matanças no Soweto e outras áreas chegaram a uma dimensão inédita na África do Sul desde a Guerra dos Bôeres, quase 100 anos antes.

Mandela clamava em público, se indignava contra De Klerk em privado, e seus colegas da executiva nacional do CNA precisavam contê-lo para que não cancelasse as negociações; para que sua ira, que às vezes o cegava, não o fizesse recorrer a um enfrentamento aberto. Entretanto, quando chegou a prova definitiva, soube manter a cabeça fria e deu sua bênção a um acordo transcendental, pelo qual o primeiro governo eleito democraticamente no país seria uma coalizão com os ministérios repartidos em função do percentual de votos obtido por cada partido.

Estendeu a mão a uma África do Sul branca bastante pacificada, convencendo a sua própria gente a fazer outra concessão em um assunto que tocava o coração de todos os sul-africanos.

Foi numa reunião da executiva nacional do CNA, quatro meses antes das históricas eleições de abril de 1994. Sem duvidar nem por um momento que o CNA ganharia as eleições, o tema concreto na pauta era a postura que o novo governo deveria adotar sobre a delicada questão do hino nacional. O velho hino era claramente inaceitável. Die Stem era uma melodia séria e marcial, que louvava a Deus e exaltava as conquistas de Retief, Pretorius e os demais vootrekkers (pioneiros bôeres) que haviam feito a Grande Marcha para o norte no século XIX, esmagando a resistência dos negros. O hino extraoficial da África do Sul negra, Nkosi Sikelele, era a emocionante manifestação de um povo que levava muito tempo sofrendo e ansiava por liberdade.

A reunião acabava de começar quando entrou um ajudante para informar a Mandela que um chefe de Estado estava ao telefone. Ele saiu da sala e os trinta e tantos homens e mulheres do órgão supremo do CNA continuaram a reunião sem ele. Havia um consenso esmagador a favor de eliminar Die Stem e substitui-lo pelo Nkosi Sikelele. Tokyo Sexwale, ex-prisioneiro da ilha de Robben e principal membro do Comitê Executivo Nacional, recordava muito bem da atmosfera da reunião durante a ausência de Mandela.

“Estávamos nos deleitando”, me contou. “‘É o fim dessa canção Die Stem’, dizíamos. ‘O fim. Acabou. Neste país vamos cantar Nkosi Sikelele e nada mais’. Estávamos nos divertindo!” Aí Mandela voltou. “Estávamos todos como crianças do primário”, dizia Sexwale, um homem grande e forte, com uma bela voz de orador. “Ele nos perguntou como iam nossas discussões e lhe dissemos que havíamos tomado uma decisão. Ele disse: ‘Pois sinto muito. Não quero ser grosseiro, mas…’ Meu Deus, todos queríamos que o chão nos engolisse. ‘Acho que devo expressar o que penso sobre essa moção. Nunca pensei que pessoas experientes como vocês fossem tomar uma decisão de tal magnitude sobre um tema tão importante sem nem sequer esperar o presidente de sua organização’”.

E então, em tom mais severo e de professor de escola, que jamais seus colegas do CNA o haviam visto utilizar, expôs seu ponto de vista. “Essa canção que vocês descartam com tanta facilidade contém as emoções de muitos daqueles aos quais vocês ainda não representam e, de uma só canetada, vocês querem tomar uma decisão que destruiria a própria base – a única – sobre a qual estamos construindo o país: a reconciliação”. Os homens e mulheres da executiva nacional do CNA, muitos deles muito conhecidos na África do Sul, considerados heróis e heroínas da luta, se encolheram de vergonha. Mandela propôs que, quando fossem celebradas eleições e para o futuro, a África do Sul tivesse dois hinos, que seriam tocados um após o outro em todas as cerimônias oficiais, desde as posses presidenciais até as partidas de rúgbi: o Die Stem e o Nkosi Sikelele. Derrotados moralmente, esmagados pela lógica do argumento de Mandela, os combatentes da liberdade se renderam de forma unânime. Sexwale ria às gargalhadas anos depois ao recordar o desconcerto que tinha sentido ao ver como Mandela os havia manipulado. “Jacob Zuma, que presidia a reunião, disse: ‘Bom, eu acho… acho… acho que a coisa está clara, camaradas. Acho que a coisa está clara…’. Ninguém levantou um dedo para se opor.”

Os membros da executiva nacional capitularam por completo frente à ira de Mandela, porque compreenderam de imediato que seu afã de vingança sobre a questão do hino branco havia sido pueril, que a resposta política com mais visão de futuro ao dilema que estavam debatendo era a solução madura e generosa que defendia Mandela. Mas cederam também porque, depois das suas atuações magistrais ao sair da prisão, eles haviam aprendido a aceitar que “o velho” era muito mais hábil do que qualquer um deles na moderna arte do simbolismo político. A importância do hino era a de criar um espírito nacional, a possibilidade de exercer a persuasão política apelando às emoções das pessoas. Essa era, como haviam compreendido os demais dirigentes do CNA, a essência do seu talento político, a faceta na qual superava de longe todos os outros. O próprio Mandela me disse, durante uma das conversas que tivemos em sua casa, que havia passado um sermão ao comitê executivo sobre a necessidade de conquistar os africâneres, de demonstrar respeito pelos seus símbolos, de se esforçar para incluir umas quantas palavras em africâner ao começar um discurso. “Você não está lhes falando ao cérebro”, disse, “está lhes falando ao coração”.

Ele fez o mesmo, com um êxito ainda mais espetacular, no ano em que assumiu a presidência, durante a Copa do Mundo de rúgbi, que pela primeira vez acontecia na África do Sul. Conseguiu a incrível proeza de convencer sua própria gente a torcer pelos Springboks, a seleção sul-africana, fazendo assim com que um dos símbolos mais odiados da opressão do apartheid se transformasse em instrumento de unidade. Embora só houvesse no time um jogador que não fosse branco, os negros, conclamados por Mandela, adotaram os Springboks e começaram a considerá-los representantes lógicos da nova bandeira nacional. É impossível esquecer como, na final de Johanesburgo, vencida pela África do Sul, praticamente toda a multidão de brancos (os torcedores do rúgbi não haviam estado precisamente na vanguarda progressista nas questões raciais durante os anos do apartheid) gritava seu nome. “Nelson! Nelson! Nelson!” Quando Mandela entregou a taça ao capitão do time, François Pienaar, um loiro grandalhão filho do apartheid, lhe disse: “Obrigado, François, pelo que você fez pelo nosso país”. “Não senhor presidente”, respondeu Pienaar, com enorme presença de espírito. “Obrigado ao senhor pelo que fez por nosso país.”

Naquele dia, provavelmente o mais feliz – e, sem dúvida, o de maior unidade patriótica – da história da África do Sul, Mandela cumpriu sua missão duplamente impossível de liderança política. Convenceu todo um povo, o povo com mais divisão racial da Terra, a mudar de opinião.

O objetivo fundamental de Mandela durante seus cinco anos como presidente foi cimentar as bases da nova democracia e afastar a perspectiva de uma contrarrevolução terrorista de extrema direita armada. E conseguiu. A África do Sul, apesar de todos os problemas que tem hoje (problemas que compartilha com dezenas de países, depois de ter se desfeito da épica e terrível singularidade que em outros tempos a distinguia do resto do mundo), é uma democracia estável, muito mais respeitosa com o império da lei e da liberdade de expressão do que, por exemplo, a Rússia, outro país que acabou com anos de tirania mais ou menos na mesma época. Já foi dito, e certamente continuará se dizendo por muito tempo, que Mandela poderia ter feito mais para remediar as injustiças econômicas do apartheid. Talvez, mas em um país com elevado índice de natalidade e sem cifras de crescimento econômico comparáveis, esse era um desafio praticamente impossível. O melhor que se pode dizer é que a presidência de Mandela viu o aparecimento de um novo e poderoso fenômeno social inimaginável nos anos do apartheid: uma classe média negra florescente. Poderia ter-se promovido toda uma redistribuição da riqueza nacional, mas isso certamente teria provocado o que ele mais temia: uma guerra civil entre raças. A economia que sobrasse depois disso teria sido uma economia de cemitério. Aquilo por que Mandela lutou a maior parte da sua vida foi a democracia e, uma vez conquistada, sua prioridade passou a ser a paz.

Uma paz como a que pactuou com John Reinders, cujo tratamento por parte de Mandela ilumina a grande lição que ele oferece a todas as pessoas de qualquer lugar, sejam elas lideranças políticas ou de esferas menos ambiciosas da vida. Sempre foi coerente com o que pregava e o que praticava. Falava de justiça e respeito, e tratava todo mundo, por humilde que fosse sua condição ou por irrelevante que fosse para seus objetivos políticos ou pessoais, com a mesma consideração. Um ano depois de Mandela deixar a presidência, Reinders, que continuou trabalhando sob as ordens do seu sucessor, Thabo Mbeki, recebeu um telefonema de seu antigo chefe. Queria saber se ele podia ir comer em sua casa com a família no domingo seguinte. Reinders compareceu com sua esposa e seus dois filhos, acreditando que se tratava de uma reunião ampla. Mas não, Mandela havia convidado simplesmente a família dele.

No início da refeição, Mandela levantou a taça e, dirigindo-se à mulher e aos filhos de Reinders, lhes pediu perdão por tê-los privado por tanto tempo da companhia de seu pai e marido. “Mas ele cumpriu suas obrigações de maneira esplêndida. Esplêndida!” Reinders, que voltava a chorar lembrando a história, me contou que, depois da refeição, Mandela os acompanhou até a rua e ficou acenando com a mão enquanto se afastavam de carro.

Em certa ocasião, perguntei ao arcebispo Desmond Tutu – prêmio Nobel da Paz como Mandela, e uma das pessoas que o conheciam mais de perto – se ele poderia me definir sua melhor qualidade. Tutu pensou por um momento e então, com ar vitorioso, pronunciou uma palavra: magnanimidade. “Sim”, repetiu, da segunda vez em tom mais solene, quase num sussurro: “Magnanimidade!”. Um sinônimo de magnanimidade poderia ser grandeza. É possível que nunca mais voltemos a ver ninguém igual. John Carlin é jornalista e autor do livro “Conquistando o Inimigo – Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul” (Sextante). http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/05/internacional/1386281242_679719.html

“A luta é minha vida”

Ao longo de sua vida, Mandela deixou frases para a posteridade. Confira algumas delas.

Nelson Mandela visita em 1994 a cela que ocupou na prisão da ilha de Robben. / © Patrick de Noirmont / Reuters (EL PAÍS)

Discurso na catedral de Uppsala (Suécia, 13 de março, 1990)

“Quando ouvimos aquele clamor vibrante e revigorante de preocupação humana, sabíamos que seríamos livres. Nós vimos que não haveria muros de prisão ou cães de guarda ou mesmo águas frias, como no fosso mortal que circunda a prisão da ilha de Robben, que pudessem frustrar os desejos de toda a humanidade. Nós tiramos força e sustento do conhecimento de que éramos parte de uma humanidade maior do que a que nossos carcereiros poderiam reivindicar.”

26 de junho de 1961

“Fiz minhas próprias escolhas. Não deixarei a África do Sul, nem vou me render. Apenas através de dificuldades, sacrifício e ação mililtante a liberdade pode ser conquistada. A luta é minha vida. Vou continuar lutando pela liberdade até o fim dos meus dias.”

Discurso para o congresso da ANC em 21 de setembro de 1953

“A partir de agora a atividade dos congressistas não deve ser limitada a discursos e resoluções. As suas ações precisam encontrar expressão em larga escala de trabalho entre as massas, trabalho que permitirá a eles fazer o contato melhor possível com a classe trabalhadora. Você precisa proteger e defender seus sindicatos. Se você não tiver permissão para fazer suas reuniões publicamente, então você precisa realizá-las sobre suas máquinas nas fábricas, nos trens e ônibus enquanto volta para casa. Você precisa tê-las em seus bairros e comunidades. Você precisa tornar cada casa, cada barraco e cada estrutura onde vive sua gente, uma ramificação do sindicato e nunca se render.”

Discurso em Reunião Especial do Comitê Especial da ONU contra o Apartheid. Nova York, 22 de junho, 1990

“Nós reforçamos como um princípio inviolável que o racismo precisa ser enfrentado por todos os meios que a humanidade tiver à sua disposição. Onde quer que ele ocorra, ele tem o potencial de resultar em uma negação completa e sistemática dos direitos humanos para aqueles que são discriminados. Isso ocorre porque todo racismo é um desafio inerente aos direitos humanos, porque ele nega a visão de que todo ser humano é uma pessoa de igual valor como qualquer outro, porque trata povos inteiros como subhumanos.”

Discurso de encerramento na 13a conferência Internacional sobre Aids, em Durban, na África do Sul. 14 de Julho de 2000

“Não é de meu costume usar palavras leves. Se 27 anos na prisão fizeram alguma coisa por nós, foi usar o silêncio da solidão para fazer-nos entender o quão preciosas são as palavras e qual é o impacto real de seus discursos na forma como as pessoas vivem ou morrem.”

Discurso em sua tomada de posse como presidente da África do Sul em maio de 1994.

“Nunca, nunca e nunca de novo esta bela terra deverá experimentar a opressão de um pelo outro e sofrer a indignidade de ser o lixo do mundo.”

Comício na Cidade do Cabo sobre sua libertação em 11 de fevereiro de 1990

“Nossa marcha rumo à liberdade é irreversível. Nós não podemos permitir que o medo fique em nosso caminho.” http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/06/internacional/1386290558_989413.html

O herói da luta contra o apartheid em vídeos

No Youtube estão disponíveis vários vídeos que ajudam a contar um pouco da vida e da luta política de Nelson Mandela pela sua “Nação Arco-Íris” na África do Sul. Patrícia Viegas – http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2943178&seccao=%C1frica&page=-1

Vídeo mostra visita de Nelson Mandela à sua terra natal de Mvezo:

Vídeo mostra o discurso de Nelson Mandela a anunciar a sua reforma:

Vídeo mostra agradecimento pela criação do Mandela Day:

Vídeo mostra discurso de Mandela no concerto 46664 em 2003:

Vídeo mostra Mandela a entregar taça do Mundial de Râguebi de 1995:

Vídeo mostra o discurso de tomada de posse de Mandela em 1994:

Jacob Zuma anunciou morte de Mandela na televisão

Leia aqui a declaração do Presidente da África do Sul na íntegra. Jacob Zuma anunciou em direto na televisão a morte de Nelson Mandela, aos 95 anos, depois de vários meses de hospitalização devido a uma infeção respiratória.

“Companheiros sul-africanos, o nosso amado Nelson Rolihlala Mandela, o presidente fundador da nossa nação democrática, partiu. Ele morreu pacificamente na capital. A nossa nação perdeu o seu maior filho. O nosso povo perdeu um pai. Apesar de já sabermos que este dia viria, nada pode diminuir o nosso sentimento de profunda e duradoura perda. A sua luta incansável pela liberdade valeu-lhe o respeito do mundo. A sua humildade, a sua compaixão e a sua humanidade mereceram-lhe o seu amor.

Os nossos pensamentos e orações estão com a família Mandela. Para com eles temos uma dívida de gratidão. Eles sacrificaram muito e suportaram muito para que o nosso povo pudesse ser livre. Os nossos pensamentos estão com a sua mulher, com a sua ex-mulher, com os seus filhos, os seus netos, os seus bisnetos e toda a família. Os nossos pensamentos estão com os seus amigos, camaradas e colegas que lutaram ao lado de Mandela na causa de uma vida. Os nossos pensamentos estão com o povo sul africano, que hoje chora a perda de uma pessoa que, mais do que qualquer outra, viria a incarnar o seu sentimento de nação.

Os nossos pensamentos estão com os milhões de pessoas pelo mundo fora que viram o Madiba como sendo delas e que viram a sua causa como a causa delas. Este é o nosso momento de mais profundo pesar. A nossa nação perdeu o seu maior filho. Porém, o que fazia de Mandela grandioso era precisamente o que fazia dele humano. Nós víamos nele aquilo que procurávamos em nós mesmos. E nele vimos tanto de nós próprios… Companheiros sul-africanos, Nelson Mandela uniu-nos, e será unidos que nos despediremos dele. O nosso amado Madiba terá um funeral de estado. Ordenei que todas as bandeiras da República da África do Sul sejam colocadas a meia haste. E que continuem a meia haste até ao final do funeral.

Comportemo-nos com a dignidade e o respeito que Madiba personificava. Tenhamos presentes os seus desejos e os desejos da sua família quando nos reunirmos, onde quer que estejamos, no país e onde quer que estejamos no mundo. Recordemos os valores pelos quais Madiba lutou. Reafirmemos a sua visão de uma sociedade na qual ninguém é explorado, oprimido, ou despojado. Empenhemo-nos por trabalharmos juntos, sem poupar força nem coragem, para criar uma África do Sul sem amarras, não racial, não sexista, democrática e próspera.

Expressemos, cada um à sua maneira, a profunda gratidão que sentimos por uma vida gasta ao serviço do povo do seu país e da causa da humanidade. Este é de facto o nosso momento de maior pesar. Porém tem também de ser o nosso momento de maior determinação, uma determinação de viver como Madiba viveu, de nos empenharmos como ele se empenhou e de não descansarmos até que tenhamos realizado a sua visão de uma África do Sul verdadeiramente unificada. Iremos amar-te para sempre, Madiba. Que a tua alma descanse em paz. Que Deus abençoe África.”  http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=3572071&seccao=%C1frica&page=-1

As datas-chave da vida de Nelson Mandela

As datas-chave da vida de Nelson Mandela
Fotografia © Arquivos Reuters

O primeiro presidente negro da África do Sul, herói da luta contra o regime racista branco do Apartheid e ex-líder do Congresso Nacional Africano (ANC), Nelson Mandela teve uma vida de luta dura e é hoje considerado um exemplo a seguir, uma espécie de santo, mesmo se nunca o quis ser. Eis aqui as principais datas da sua vida de luta, sofrimento, triunfo e glória.

18 de Julho de 1918

Nasce Rolihlahal Mandela no pequeno povoado de Mvezo, na África do Sul

1925

É o primeiro membro da sua família a frequentar a escola, em Qunu, terra natal da mãe. A professora primária, Miss Mdingane, passa a tratá-lo por Nelson – nome que adotaria a partir daí

1939

Inicia o curso de Direito, na Universidade de Fort Hare. É expulso no ano seguinte por se envolver em greves estudantis.

1941

Mandela foge para Joanesburgo de um casamento organizado pelo seu tutor, Nkosi Dalindyebo, regente do povo tembo

1942

Completa o grau de bacharel em direito, faz exames em Fort Hare. No ano seguinte matricula-se para licenciatura na Universidade de Witwatersrand

9 de Abril de 1944

Após entrar no Congresso Nacional Africano (ANC), Mandela e 60 outros jovens formam a Liga da Juventude do ANC. Casa com Evelyn Mase.

1948

O governo, liderado pelo Partido Nacional, torna oficial a política de segregação racial do apartheid. O ANC inicia uma campanha de resistência pacífica.

1952

Eleito presidente provincial do ANC no Transval. Detidos duas vezes. Condenado a nove meses de trabalhos forçados.

1953

Mandela obtém licença para exercer advocacia. Cria o primeiro escritório de advogados negros da África do Sul com Oliver Tambo, também destacado membro do ANC.

5 de Dezembro de 1956

Ao lado de outros 155 opositores ao regime do apartheid, Mandela é preso por traição. Depois de um julgamento de quatro horas, as acusações são retiradas.

1958

Divorcia-se de Evelyn Mase, com quem teve quatro filhos. Casa-se com Winnie Madikizela, com que terá duas filhas.

21 de Março de 1960

A polícia sul-africana mata 69 pessoas e 180 ficam feridas, incluindo mulheres e crianças, durante um protesto de negros em Sharpeville. Governo declarada o estado de emergência e ilegaliza o ANC.

Junho de 1961

ANC muda de estratégia. Troca protesto pacifismo no combate o partheid pela luta armada. Formação de “Umkhonto we Sizwe” (“Lança da Nação”), sendo Nelson Mandela comandante-chefe.

9 de Janeiro de 1962

Nelson Mandela deixa a África do Sul e viaja por África. Visita Londres. Sete meses depois, entra no país disfarçado de motorista.

5 de Agosto de 1962

Depois de um ano de clandestinidade, Mandela é detido em Howick. Foi o último dia de liberdade até 11 de Fevereiro de 1990.

12 de Junho de 1964

O líder do ANC e sete outros acusados são condenados a prisão perpétua e transferidos o cárcere de Robben Island. Da prisão, Mandela mantém, contudo, papel importante como líder político.

1969

Morre o seu filho mais velho, Thembekile, num acidente de viação. Há a suspeita de que o o desastre tenha sido provocado pelos serviços secretos sul-africanos. Mandela não é autorizado a ira ao funeral.

1976

Mais de 600 estudantes são mortos em protestos no Soweto e Sharpeville. O ano seguinte, no líder dos protestos, Steve Biko, é morto quando se encontrava sob a custódia da polícia.

Junho de 1980

Declaração de Mandela, enviada da prisão ao ANC, fazia este apelo: “Unam-se! Mobilizem-se! Lutem!” No exílio, Oliver Tambo lança uma campanha internacional com a slogan “Free Nelson Mandela”. Vários artistas dedicam canções ao líder sul-africano. Em 1988 a canção Mandela Day, dos Simple Minds, é das mais ouvidas nas rádios inglesas.

1982

Dezoito anos depois de entrar em Robben Island, Mandela é transferido para a prisão Pollsmoor, em Cape Town. Segue depois para a prisão Victor Verster, onde descobre que está com tuberculose.

1985

Mandela recusa proposta do presidente Pieter Botha para o libertar se renunciar à violência.

Julho de 1986

Início de contactos com representantes do governo, encontro com o presidente Botha; cinco meses mais tarde, Mandela reúne com De Klerk.

1988

É internado no hospital de Tygerberg, com tuberculose, durante seis meses

11 de Fevereiro de 1990

Vinte e sete anos depois, Mandela é libertado. No ano seguinte, na primeira conferência nacional do ANC na África do Sul, é eleito presidente do partido.

1993

O negro e o branco – Mandela e Frederik De Klerk – que mudaram o rumo da História na África do Sul dividem o Prémio Nobel da Paz. “O valor deste prémio que dividimos será e deve ser medido pela alegre paz que triunfamos, porque a humanidade comum que une negros e brancos em um só raça humana teria dito a cada um de nós que devemos viver como as crianças do paraíso”.

5 de Outubro de 1993

O líder do ANC visita Portugal. É recebido pelo primeiro-ministro Cavaco Silva. Num almoço promovido pelo Movimento Português Contra o Apartheid confessou ser apreciador do vinho do Porto, sua bebida favorita, que provou pela primeira vez numa escala em Lisboa, em 1961.

27 de Abril de 1994

Os sul-africanos votam na primeira eleição democrática do país. O ANC vence: Mandela é eleito o primeiro presidente negro da África do Sul.

10 de Maio de 1994

“Nunca, nunca e nunca de novo esta bela terra experimentará a opressão de um sobre o outro”, declara Mandela, na tomada de posse como presidente da África do Sul.

1995

Seleção sul-africana de râguebi, movida pela ideia de união da nação, é campeã do mundo.

1998

Terceiro casamento do líder sul-africano. Mandela comemora o 80º aniversário e casa com Graça Machel, viúva do ex-líder moçambicano Samora Machel. A primeira esposa de Mandela foi Evelyn Mase, divorciaram-se após 13 anos de casamento. Casou depois com Winie Madikizela, e com ela viveu 38 anos, divorciando-se em 1996.

1999

Retira-se da política no final do primeira mandato. Thabo Mbeki é eleito presidente da África do Sul.

2003

Condena a ofensiva aliada no Iraque (liderada por George W. Bush e Tony Blair). Segundo Mandela, esse ataque violava o respeito pelas instituições democráticas multilaterais e o direito internacional. Na Cidade do Cabo, realiza-se o primeiro concerto da campanha 46664 contra a sida (46664 é o antigo número de prisioneiro de Mandela na cadeia da Robben Island)

Junho de 2004

Mandela anuncia sua retirada da vida pública. Abre uma exceção: discursa na XV Conferência Internacional sobre a sida, na Indonésia.

2006

Amnistia Internacional distingue Mandela como o Prémio Embaixador de Consciência, pelo reconhecimento da sua liderança na luta e defesa dos direitos humanos.

2007

Funda, com mais onze líderes, o Grupo de Ancião, que se destina a promover a paz e a justiça no mundo.

27 de Julho de 2008

Músicos, estrelas e cinema e políticos reúnem-se num concerto, no Hyde Park de Londres, para festejar os 90 anos de Nelson Mandela.

2009

As Nações Unidas declaram a data 18 de Julho (dia em que nasceu o líder sul-africano) como Dia Internacional Nelson Mandela.

2010

Participa na cerimónia de encerramento do Campeonato do Mundo de Futebol, no Soweto, África do Sul.

5 de Dezembro de 2013

Morre Nelson Mandela aos 95 anos. Estava doente há muito. Tinha sido hospitalizado por diversas vezes nos últimos anos. Encontrava-se atualmente a receber cuidados de saúde em casa. Francisco Mangas – http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2942793&seccao=%C1frica&page=-1

Morreu Nelson Mandela, um exemplo de paz, coragem e união

Morreu Nelson Mandela, um exemplo de paz, coragem e união

Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul, morreu hoje aos 95 anos de idade. O anúncio foi feito pelo Presidente Jacob Zuma, que indicou que ‘Madiba’ terá um funeral de Estado.

“Ele está agora a descansar. Ele está agora em paz. A nossa nação perdeu o seu maior filho. O nosso povo perdeu um pai”, disse o Presidente sul-africano, Jacob Zuma, numa declaração televisiva.

‘Madiba’, nome carinhoso pelo qual era conhecido entre os sul-africanos, tinha sido hospitalizado por várias vezes ao longo dos últimos anos. Desde setembro que estava a receber tratamento em casa. Herói da luta contra o Apartheid, ex-líder do Congresso Nacional Africano (ANC) e Prémio Nobel da Paz, Mandela deixa um legado de paz, coragem e união à África do Sul e ao mundo.

Na página oficial de Nelson Mandela no Facebook foi colocada uma citação do ex-presidente, de 1996, em várias línguas, incluindo o português: “A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade.”

Em 2006, num documentário da MSNBC, Mandela falou sobre a morte: “Gostaria que se dissesse, ‘Aqui jaz um homem que fez o seu dever na Terra’, é tudo”. Não se sabe para já se esse seu desejo será cumprido com tal simplicidade, mas o ex-chefe do Estado sul-africano bem pode estar certo de que cumpriu o seu dever.

Após 27 anos passados na prisão, 18 dos quais passados na Robben Island, enfrentou um regime racista branco, tendo-se preparado em várias outras ocasiões para morrer (quando estava a ser julgado e se preparava para ouvir a sentença pensava que ela seria a pena de morte).

Sem desejo de vingança, sem rancor acumulado, conseguiu uma transição para a democracia sem lugar para vinganças, tendo lançado as bases daquilo a que arcebispo anglicano Desmond Tutu chamou uma Nação Arco-Íris. E sempre através do exemplo, dando aos outros o exemplo, ensinando a perdoar.

Venceu as primeiras eleições livres na África do Sul, em 1994, tendo-se tornado o primeiro presidente negro daquela que é hoje a maior economia africana. Cumpriu apenas um mandato, deixando o poder de livre vontade, na esperança de dar o exemplo a outros líderes africanos e mundiais. Teve pouca sorte, pois poucos lhe seguiram os passos, sendo Joaquim Chissano e Pedro Pires, ex-presidentes de Moçambique e de Cabo Verde, dos poucos líderes africanos que não se agarraram de forma egoísta ao poder.

Hoje, a África do Sul, liderada pelo Presidente Jacob Zuma (que sucedeu a Thabo Mbeki no meio de uma luta fratricida pelo poder e pela liderança do ANC), enfrenta inúmeros desafios: desemprego, criminalidade elevada, conflitos laborais no setor mineiro (massacre de Marikana é uma página negra na história atual do país), com índices de pobreza ainda significativos e com números alarmantes de infectados com o VIH/Sida.

Mandela lutou sempre contra esta doença, que lhe levou um dos seus filhos, Makgatho. Em 2003, o ex-líder do ANC ofereceu o seu antigo número de prisioneiro na cadeia da ilha de Robben Island, o 46664, para servir de mote a um concerto e a uma campanha de luta contra o VIH/Sida.

“Nelson Mandela talvez seja o último dos heróis puros do nosso planeta. É o símbolo sorridente do sacrifício e da rectidão, venerado por milhões de pessoas, como um santo vivo”, escreveu Richard Stengel, no seu livro ‘O Legado de Mandela’. Stengel, hoje em dia editor da ‘Time’, foi o jornalista escolhido para ajudar o ex-líder sul-africano a escrever a sua autobiografia, ‘Um Longo Caminho para a Paz’.

Nascido a 18 de julho de 1918, no Mvezo, Mandela é de etnia xhosa e membro da tribo dos tembu, tendo estudado em Fort Hare, formando-se advogado. Ao longo da sua vida casou três vezes e teve seis filhos, dos quais apenas três estão hoje em dia ainda vivos.

Com Evelyn Ntoko Mase esteve casado entre 1944 e 1958 e teve Maki 1 (nasceu em 1947 e morreu nove meses depois), Maki 2 (nasceu em 1954), Thembi (1946-1969) e Makgatho (1951-2005). Com Winnie Madkizela-Mandela esteve casado entre 1957 e 1996 e teve Zenani (nascida em 1959) e Zindzi (nascida em 1960). Com Graça Machel, viúva do ex-líder moçambicano Samora Machel, casou em 1998, quando fez 80 anos.

Foi ela a sua companheira de velhice. Em 2009, numa entrevista à CNN, Graça Machel confessava ser “de partir o coração observar o espírito e a chama de Mandela a extinguirem-se” à medida que ele envelhece. “Tem sido doloroso vê-lo envelhecer”, disse ainda Machel na referida entrevista. Um ano antes, também à CNN, a ex-primeira-dama de Moçambique admitia que a única coisa que Mandela lamenta na vida é não ter passado mais tempo com os seus filhos. Patrícia Viegas – http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2942828&seccao=%C1frica&page=-1

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